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Terça-feira, Julho 18, 2006

a arte da fuga

Conseguida a custo a entrega temporária dos miúdos, encontram-se a meio caminho entre a casa dos pais dela e o escritório dele. Acorrem sem pressa àbilheteira e aceitam sem reclamar as sobras que a mulher sisuda do lado de lá do vidro lhes impõe, afinal, é segunda-feira e estão atrasados, não têm por que se queixar. Dão por eles nos lugares mais escondidos da sala mais recôndita de um mega-complexo recém inaugurado, enfronhados no pesadelo neurótico-estático de um realizador nórdico premiado.
Mergulham os dois as mãos no balde das pipocas e recordam aquela vez em que aterraram também de chofre nos delírios onanistas de um outro realizador, este francês (só podia!), o que lhes vale um ataque de riso, logo seguido de um chiuuu! sibilado do outro canto da sala. Parecia que, a cada vez que tentavam fugir, por uma hora que fosse, da esquizofrenia do seu próprio quotidiano, o acaso trocava-lhes as voltas e contemplava-os com a esquizofrenia dos outros, esparramada num ecrã gigante! Não é que achassem aquilo mau (aliás, quem eram eles para criticar o chamado cinema de autor?, eles, os soberanos incontestados das matinés walt disney presents...), mas fazia-lhes espécie, aquela ausência de ruído das emoções dos personagens, que os obrigava a deitarem-se a adivinhar.
Às tantas, algures entre um divórcio e uma tentativa de suicídio filmados em tons sépia, ele sussurra-lhe, o que me apetecia mesmo, mesmo, era um big mac. Ela sacode uma pipoca colada no canto da boca e, sem se dar ao trabalho de fingir-se enjoada com a vulgaridade da sugestão, atira-lhe um sonoro e sintético bora!. Enquanto, no ecrã, a neve cai e os personagens dialogam sob a forma de monólogos sucessivos, eles dão-se as mãos pegajosas de açúcar queimado e furam sem cerimónia a circunspecta fila, deixando atrás de si um lastro de desculpas não aceites. No corredor e a caminho da porta, por entre fiapos de escuro e luz, ela arrisca, queres namorar comigo?; ele alinha no jogo, está bem, mas só hoje.
Acabam empoleirados em dois bancos de fórmica, rodeados de putas e chulos, a lamber ketchup dos dedos e a recordar episódios do Seinfeld.
Nessa noite, não pedem três happy meal com cheese natura, dois para rapaz, um para rapariga. Mas arrecadam o brinde.