Tinham avançado aos solavancos, como um daqueles carros engasgados com o depósito atestado de gasolina suja; haviam-se dado um tempo para, logo a seguir, quase cederem à voragem do mergulho; tinham-se imaginado a tez e os tons de cabelo, depois comprovado a espessura da voz e medido os silêncios, embalados na cadência da respiração de cada um do lado de lá do telefone; tinham-se mantido no fio da navalha que é aquela conversa que balança entre o luminoso e o banal; tinham-se roçagado pequenos gostos e vontades (rasas, daquelas de superfície), eu gosto disto, eu prefiro aquilo; haviam-se calado de súbito na escrita porque a estranha proximidade das respirações, seguidas dos milimétricos silêncios e coladas ao ouvido de cada um, lhes estrangulara o encanto das palavras (embora nessa ausência se pressentisse já o encanto da voz); tinham-se gostado das vozes: a dele, calma, a fazer-lhe ver, a cada nota, a ponderação sintática e estática que poria (presumivelmente) na sua vida e que já lhe havia dado a entender nos textos que lhe escrevera; a dela, meia urgente e desconexa, desarrumada, como ela mesma, sempre à beira do excesso e do riso, e recortada aqui e ali por baixios deliberados (com os quais pretendia suavizar os contornos da excitação que por ela subia sempre que à beira de conseguir algo, mas quando ainda cá em baixo, de braço estendido e com a ponta do dedo quase a tocar esse algo). Gostara ela, em especial, do contraponto que as vozes de ambos se haviam produzido: um contraponto sincopado que lhe soara quase a música (um dueto de tenor e mezzo soprano, talvez); e não fazia a mínima ideia por que razão dava por si, a meio do dia, por entre as infindáveisirrelevâncias burocráticas em formato A4 que rubricava a seco, a pensar naquele contraponto e a sorrir, cheia de vontade.
Era um facto: aquela vontade, ultimamente, picava-lhe o ponto todos os dias - e trabalhava (-a) em hora de expediente.
Terça-feira, Julho 18, 2006
contraponto

<< Home