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Terça-feira, Julho 18, 2006

então, anda cá

Esperou, paciente, que a última pestana dela se libertasse do peso do rimmel. As suas formas de violoncelo, os cabelos pintados e o seu halo insustentável de mulher, lembraram-lhe as de uma actriz antiga e imaginou-a a banhar-se numa fonte romana. Há muito tempo que não a via e soube então que lhe sentira a falta. Esquecera-se de como ela demorava horas em frente ao espelho, como se a noite lhe pertencesse por atacado, numa velha pantomima feita de gestos de dança, suaves e cronometrados, como o princípio de um pas de deux , no qual se despia do seu eu de rua e fingia ignorar o desejo dele. Matou as saudades, algodão a algodão, óleo a óleo, máscara a máscara. Haviam passado tantos anos! O que fizera ela? Por onde andara, enquanto cumprira os múltiplos rituais do dia? Resolveu quebrar o silêncio. Os miúdos, já estão a dormir? Ela virou-se e fitou-lhe o umbigo. . Ele sorriu. Então, anda cá.