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Terça-feira, Julho 18, 2006

erro de casting

Hoje, convence-se de que não o viu porque não o quis ver, apesar da vigorosa certeza, martelada dentro dela por uma convicção marceneira, de que, no seu campo de visão, não se encontrava ninguém que correspondesse à ideia que fizera dele. Relembra o momento como se fosse o ainda. Alheia aos mistérios da semiótica escondidos na escrita críptica de Umberto Eco, balança o olhar entre as transparências do gin tónico (amolecido pelos minutos a mais), as espessuras do rio à sua frente e os gestos voláteis dos que chegam e se vão sentando. Abre e fecha o livro ao ritmo do próprio pêndulo que lhe deu o nome, ajusta os óculos escuros à cana do nariz com uma urgência distraída, emudece com a língua os lábios secos da espera e vira-se de quando em vez para a porta da entrada, não vá ser surpreendida enquanto finge que não se surpreende.
Ele jura-lhe que sim, que esteve lá, que a fitou intensamente, que se corresponderam por segundos através das lentes escuras com protecção UVA; ela garante-lhe que não, que varreu a superfície de todas as mesas, de todas as cadeiras e seus ocupantes, como a luz de um farol varre a superfície do mar numa noite sem lua, mas não, não o viu. Decerto ele não fora, haveria um engano qualquer. Ele insiste, confuso; confirma-lhe a presença invisível, descreve-a, e ao seu movimento pendular; fala-lhe das suas mãos a braços com o copo de gin, do livro emaranhado de letras a fazer de mero adereço, e do rio ( corrente de propósito acusador, pensa ela, que lhe aponta o dedo à passagem e lhe torce o nariz de desdém).
Enquanto lá está, a ela às tantas (e embora bafejada por uma maresia ventosa), falta-lhe o ar e mirraram-se-lhe os pulmões, como se Lisboa à beira Tejo mais não fosse do que um gigantesco elevador encravado entre andares; ganha-lhe terreno uma impressão levezinha de pânico, muito leve, só as pontas dos dedos do pânico, melhor, só a ponta do dedo mindinho do pânico, a roçar-lhe a nuca e as palmas molhadas das mãos, enquanto o estômago se lhe emperra na tentativa de centrifugar o meio gin engolido sem fé.
E pronto, o arremedo do medo afia-lhe a atenção como a ponta de um lápis e aguça-lhe os sentidos, e ela, dotada de uma súbita super visão e talvez de outros poderes, separa-se de si mesma e, pairando sobre as águas do rio emfrente (que lhe franze as sobrancelhas), observa, analiticamente, a apneia pendular que domina aquele corpo que lhe é exterior, ora debruçado sobre a mesa, ora a girar sobre si próprio. Vê-se sentada à mesa, desgarrada, desfazada e fora do contexto daquilo tudo; fecha os olhos, cede aos murmúrios do rio (que corre em baixo num tom de censura) e recusa-se a olhar à volta e para além de si própria, dando por finalizado o tempo de antena do faz-de-conta.
Porque é nesse momento - nesse exacto momento - que se abate sobre ela a consciência de a sua presença ali resultar de um flagrante erro de casting, do qual se teria decerto apercebido mais cedo, não fora o barulho das luzes e aqueles arrepios todos colados à pele, decalques da ideia que fizera dele.