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Terça-feira, Julho 18, 2006

SMS

Era óbvio que ela subestimara o poder erótico de um SMS e baixara a guarda, por assim dizer. Ficou a olhar, parva feita, para as letras que rebrilhavam no ecrã de cristais líquidos, gosto mesmo de ti, miúda, com a vírgula no lugar certo, com todos os éfes e érres, sem aquelas abreviaturas na moda, nenhum amt, adrt, bjs, LOL, xis ou kapas. Deu por si a soletrar mentalmente aquela palavra, mêjemu, mêjeeeeemuuu, a demorar-se nas vogais e a amarfanhá-las sob a língua dobrada, esmagando-as e alisando-as como um rolo compressor sobre o asfalto, enquanto o coração batia cada vez mais depressa e cada vez mais em baixo, pum pum, pum pum.
O gosto de ti, verdade se diga, fora-lhe absolutamente fatal: gosto (mesmo) de ti e pumba!, a dor do prazer físico não gozado acertara-lhe direitinha na espinal medula, como uma punção lombar. Um amo-te, teria soado a banalidade descartável e falsa, a roçar o piroso; já um adoro-te, teria parecido exagerado, lembraria devoções cegas. Mas não. Apenas um gosto mesmo de ti, miúda, como quem escreve, gosto tanto de ti que me apetece foder-te aqui e agora, gosto tanto dos teus mucos e cheiros e glândulas sebáceas e pêlos e ácaros microscópicos, que me apetece identificá-los, catalogá-los um a um e depois saboreá-los a todos; e roçar os teus taninos contra o céu da minha boca, gargarejando-os em seguida, como um escanção numa prova de vinhos; gosto de ti de tal forma que não tens hipótese nenhuma porque eu, o lobo mau, quero mesmo comer-te e vou apanhar-te, porque gosto mesmo de ti, gosto mesmo de borrego assado no forno com batatinhas àpadeiro, é o meu prato favorito. E ela, a arfar baixinho, a olhar para aquelas quatro palavras, perfeitas, rematadas por um perfeito ponto final, o cérebro a ordenar um delete ao polegar mas este a resvalar para o save, o desejo a escorregar pelas ravinas dela abaixo sem se conseguir agarrar a coisa alguma na descida, desamparado, por ali fora e ali vai ele. E, depois, a história do miúda. De mulher, passara de repente a miúda, frágil e virginal, com vontade de lhe saltar para cima naquele exacto momento e de voltar a aprender com ele o bêabá da pele, de mergulhar no visor iluminado e de o encontrar nos circuitos electrónicos, um predador à caça dela, acoitado algures entre a memória do cartão SIM , o menu e a lista de contactos.
Que não restassem dúvidas: cada letra de cada palavra havia sido escolhida com uma precisão cirúrgica; a intuição dele, uma estalactite aguçada pelo roçagar permanente do desejo, fizera-o disparar um autêntico aríete na direcção dos centros nervosos dela: uma frase pequena, descomprometida, depurada de juízos de valor e de figuras de estilo, destilada no puro e simples alambique da tesão. Adivinhava-lhe a expressão de gozo, triunfante e malévola, e sentia-se cordeirinho, capuchinho e avózinha, prestes a mergulhar na floresta negra das árvores falantes e sabendo de antemão que se iria perder dentro da sua própria cabeça, muito mais perigosa e traiçoeira do que a pior das intenções dele. Porque, bem o sabia, nós só fazemos o que queremos (quando não o fazemos, é apenas porque não o quisemos o suficiente). E ela, queria-o.
Fechou os olhos, destravou a ponta da língua, tocou no visor do telemóvel e lambeu-o, engolindo as palavras uma a uma, como se o devorasse inteiro e, depois, ele seguisse o curso natural das coisas mastigadas, esófago abaixo, e acabasse dissolvido nos seus quimo e quilo, sem dó nem piedade. Um travo amargo teimava em acompanhar-lhe o gozo da ingestão, como o sabor quase azedo de um leite esquecido ao sol. Ainda a outra mão lhe descia pelo corpo abaixo, ao ritmo desgovernado da fantasia, gosto mesmo de ti, miúda, quando o telemóvel tocou. Sem abrir os olhos, ela lambeu os dedos molhados e usou o indicador para atender a chamada, antecipando a voz dele, anasalada e sem ponta de graça.
Não devias ter telefonado, adiantou-se-lhe.