<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss'><id>tag:blogger.com,1999:blog-27498677</id><updated>2009-02-21T16:14:07.461Z</updated><title type='text'>os contos</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://controversamaresia-oscontos.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://controversamaresia-oscontos.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>vieira do mar</name><email>noreply@blogger.com</email></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>23</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>25</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27498677.post-115318444593453009</id><published>2006-07-18T02:00:00.000+01:00</published><updated>2006-07-18T10:53:46.223+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;b&gt;&lt;font size=4&gt;&lt;font color="#8080FF"&gt;a vida seguinte&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/b&gt;&lt;p&gt;&lt;p&gt;

Antes de ele come&amp;ccedil;ar a falar, j&amp;aacute; ela o olhava; por vezes, respondia-lhe sem ele nada ter perguntado, adivinhava-lhe os medos e as vontades mesmo antes de estes se formarem na parte ainda consciente do c&amp;eacute;rebro dele (na que conseguira fugir com o rabo &amp;agrave; seringa da doen&amp;ccedil;a que o mastigava e engolia, aos bocadinhos, aos quadradinhos de a&amp;ccedil;ucar e &amp;agrave;s colherzinhas de caf&amp;eacute;). &lt;br&gt;
Gozavam-se por aquele corpo dele, um dia erecto como o de um oficial prussiano, agora balan&amp;ccedil;ar e a vergar como as hastes de um salgueiro, ao sabor da ventania das sinapses interrompidas pelos seus neur&amp;oacute;nios moribundos. Gozavam-se por ele, &amp;agrave;s vezes, a chamar pelo nome de antigas namoradas (o que fazia convicto e sem qualquer sombra de d&amp;uacute;vida) e de ela lhe fazer notar o engano, acordando-lhe o sexo com mordidelas delambidas, &lt;/font&gt;&lt;i&gt;pensa l&amp;aacute;melhor, alguma delas te fazia isto?&lt;/i&gt;, e ele, &lt;i&gt;claro que n&amp;atilde;o&lt;/i&gt;, e riam-se e depois enrolavam-se os dois, embalados nas tremuras dele (que n&amp;atilde;o eram nada perto das dela, lunares e mete&amp;oacute;ricas, quando se vinha). &lt;br&gt;
&lt;i&gt;A doen&amp;ccedil;a&lt;/i&gt;, coisa que eles pensavam de velhos que se babam e apodrecem nos lares, apanhara-os a meio da vida, ali mesmo, no &amp;acirc;mago, no centro da alegria dos planos por concretizar e dos projectos por cumprir. A umas trocas e baldrocas com os nomes e as mem&amp;oacute;rias, seguiram-se umas suspeitas vagas, a gest&amp;atilde;o complicada do medo, muitos exames, a nega&amp;ccedil;&amp;atilde;o e, por fim, um diagn&amp;oacute;stico filho da puta e mau como as cobras. &lt;br&gt;
Desde o in&amp;iacute;cio, afrontaram a &lt;i&gt;besta &lt;/i&gt; &lt;i&gt;besta&lt;/i&gt; da &amp;uacute;nica forma que sabiam como (a mesma com que sempre haviam levado a vida): a gozar indecentemente com tudo e todos, principalmente com eles mesmos e com a sua inusitada desgra&amp;ccedil;a. Balan&amp;ccedil;avam-se entre os ataques de riso e de choro e acabavam abra&amp;ccedil;ados, a lamber-se as l&amp;aacute;grimas, a saliva e o ranho, e amaldi&amp;ccedil;oando o dia em que se haviam descoberto (ou antes, &lt;i&gt;redescoberto&lt;/i&gt;).  Ela estava t&amp;atilde;o ou mais doente do que ele, claro; sabia-se, ali&amp;aacute;s, mortalmente ferida: ele tremia por fora, ela por dentro; quanto mais ele se enganava, mais ela se desenganava, na certezinha de que um dia morreriam juntos e de que expirariam no mesmo exacto segundo (era o seu suporte de vida, a sua respira&amp;ccedil;&amp;atilde;o assistida, essa certeza). &lt;br&gt;
Constru&amp;iacute;ram um novo mundo e envolveram-no n&amp;acute;&lt;i&gt;a doen&amp;ccedil;a&lt;/i&gt;, como uma esp&amp;eacute;cie de m&amp;oacute;dulo espacial. Passaram a viajar dentro de casa: sentavam-se no tapete de &lt;i&gt;kairouan&lt;/i&gt;, pegavam no &lt;i&gt;mapa mundi&lt;/i&gt;, escolhiam criteriosamente um destino e passavam dias a imaginar as paragens no caminho, as pernoitas, os incidentes de percurso, as pessoas, os cheiros, as comidas, a temperatura, a cor do c&amp;eacute;u e o temperamento dos nativos. Enfeitavam-se com &lt;i&gt;caftans&lt;/i&gt; marroquinos, mantas de l&amp;atilde; peruanas e &lt;i&gt;sombreros&lt;/i&gt; mexicanos, comprados em feiras de artesanato ao p&amp;eacute;da porta, e fumavam &lt;i&gt;puros&lt;/i&gt;, enquanto ela cozinhava &lt;i&gt;chilaquiles&lt;/i&gt; e &lt;i&gt;moqueca&lt;/i&gt;, ao som de colect&amp;acirc;neas &lt;i&gt;putumayo&lt;/i&gt; de&lt;i&gt; world music&lt;/i&gt;. &lt;br&gt;
Abalan&amp;ccedil;aram-se, portanto, a uma &lt;i&gt;vida de brincar&lt;/i&gt; no confino das quatro paredes da casa onde viviam (ele tinha medo de sair, de cair, de ofender, enfim, de &lt;i&gt;falhar&lt;/i&gt;). &amp;Agrave;s vezes, divertiam-se a valer e acabavam no ch&amp;atilde;o da sala ou na cama, rebolados de riso, no final ingl&amp;oacute;rio de fodas humor&amp;iacute;sticas (de t&amp;atilde;o mal sucedidas), ap&amp;oacute;s festins com dildos e outros brinquedos de geometria rara (daqueles que colmatavam os espa&amp;ccedil;os vazios que eram a mem&amp;oacute;ria e a tes&amp;atilde;o dele, e que preenchiam, com efic&amp;aacute;cia variada, um outro tipo de espa&amp;ccedil;os vazios, os dela). &lt;br&gt;
Nunca esconderam &lt;i&gt;a doen&amp;ccedil;a&lt;/i&gt; dos outros e tinham, vezes sem conta, a casa cheia de amigos, em noitadas de copo na m&amp;atilde;o, a contarem-se anedotas sobre velhos, &lt;i&gt;parkinsons&lt;/i&gt;, &lt;i&gt;alzheimers&lt;/i&gt;, cancros e decrepitude em geral, num exorcismo colectivo do medo.Ao fim de alguns anos e de v&amp;aacute;rias voltas ao mundo, percorrido o cancioneiro popular mundial e envergados os trajes t&amp;iacute;picos das na&amp;ccedil;&amp;otilde;es unidas e das ainda por unir, a coisa come&amp;ccedil;ou a complicar-se. E a destrui&amp;ccedil;&amp;atilde;o progressiva do c&amp;eacute;rebro, a perda do gosto, do tacto, do prazer, do riso e - pior - a perda da capacidade de imaginar tudo isso, foram-lhes carcomendo as resist&amp;ecirc;ncias, inicialmente acolchoadas com ironia e almofadadas com amorosa intelig&amp;ecirc;ncia. &lt;br&gt;
E, de repente, num dia como outro qualquer, ela olhou-o e soube que j&amp;aacute; n&amp;atilde;o era ele que ali estava, mas apenas um inv&amp;oacute;lucro, uma pele seca de bicho, que se descascara, ca&amp;iacute;ra e ficara para tr&amp;aacute;s, misturada com as folhas e a terra, desfazendo-se em h&amp;uacute;mus. E percebeu que chegara o momento de o deixar ir, pois s&amp;oacute; assim poderia continuar a seguir-lhe o trilho. Pegou ao colo no que sobrara dele e pouso-o sem pressas na &amp;aacute;gua morna da banheira. Viu-o adormecer. Medicou-se excessivamente e deitou-se ao lado dele; os dois, ali, abra&amp;ccedil;ados, por fim num sono sem sonhos nem tremuras. &lt;br&gt;
Reencontraram-se do lado de l&amp;aacute;, dizem que ao som de violinos, e que ele ter&amp;aacute; desatado a correr via l&amp;aacute;ctea abaixo, num passo firme e coordenado (daqueles de atleta), a abra&amp;ccedil;&amp;aacute;-la com tamanha for&amp;ccedil;a que ela ter&amp;aacute;sentido estalarem-se-lhe as v&amp;eacute;rtebras, sob o fulgor feliz daquele amplexo musculado. Parece que se sentaram algures por ali, &amp;agrave; conversa, onde aguardaram a passagem da &lt;i&gt;vida seguinte&lt;/i&gt;, para dentro da qual saltaram, de um pulo e de m&amp;atilde;os dadas, mal esta lhes abriu as portas da frente. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27498677-115318444593453009?l=controversamaresia-oscontos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115318444593453009'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115318444593453009'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://controversamaresia-oscontos.blogspot.com/2006/07/vida-seguinte-antes-de-ele-comeos.html' title=''/><author><name>vieira do mar</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01863960878258913114'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27498677.post-115318423042879102</id><published>2006-07-18T01:57:00.000+01:00</published><updated>2006-07-18T02:08:37.150+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;b&gt;&lt;font size=4&gt;&lt;font color="#8080FF"&gt;contraponto&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/b&gt;&lt;p&gt;&lt;p&gt;


Tinham avan&amp;ccedil;ado aos solavancos, como um daqueles carros engasgados com o dep&amp;oacute;sito atestado de gasolina suja; haviam-se dado um tempo para, logo a seguir, quase cederem &amp;agrave; voragem do mergulho; tinham-se imaginado a tez e os tons de cabelo, depois comprovado a espessura da voz e medido os sil&amp;ecirc;ncios, embalados na cad&amp;ecirc;ncia da respira&amp;ccedil;&amp;atilde;o de cada um do lado de l&amp;aacute; do telefone; tinham-se mantido no fio da navalha que &amp;eacute; aquela conversa que balan&amp;ccedil;a entre o luminoso e o banal; tinham-se ro&amp;ccedil;agado pequenos gostos e vontades (rasas, daquelas de superf&amp;iacute;cie), &lt;i&gt;eu gosto disto, eu prefiro aquilo&lt;/i&gt;; haviam-se calado de s&amp;uacute;bito na escrita porque a estranha proximidade das respira&amp;ccedil;&amp;otilde;es, seguidas dos milim&amp;eacute;tricos sil&amp;ecirc;ncios e coladas ao ouvido de cada um, lhes estrangulara o encanto das palavras (embora nessa aus&amp;ecirc;ncia se pressentisse j&amp;aacute; o encanto da voz); tinham-se gostado das vozes: a dele, calma, a fazer-lhe ver, a cada nota, a pondera&amp;ccedil;&amp;atilde;o sint&amp;aacute;tica e est&amp;aacute;tica que poria (presumivelmente) na sua vida e que j&amp;aacute; lhe havia dado a entender nos textos que lhe escrevera; a dela, meia urgente e desconexa, desarrumada, como ela mesma, sempre &amp;agrave; beira do excesso e do riso, e recortada aqui e ali por baixios deliberados (com os quais pretendia suavizar os contornos da excita&amp;ccedil;&amp;atilde;o que por ela subia sempre que &amp;agrave; beira de conseguir algo, mas quando ainda c&amp;aacute; em baixo, de bra&amp;ccedil;o estendido e com a ponta do dedo quase a tocar esse algo). Gostara ela, em especial, do &lt;i&gt;contraponto&lt;/i&gt; que as vozes de ambos se haviam produzido: um contraponto sincopado que lhe soara quase a m&amp;uacute;sica (um dueto de tenor e &lt;i&gt;mezzo soprano&lt;/i&gt;, talvez); e n&amp;atilde;o fazia a m&amp;iacute;nima ideia por que raz&amp;atilde;o dava por si, a meio do dia, por entre as infind&amp;aacute;veisirrelev&amp;acirc;ncias burocr&amp;aacute;ticas em formato A4 que rubricava a seco, a pensar naquele contraponto e a sorrir, cheia de &lt;i&gt;vontade&lt;/i&gt;. &lt;br&gt;
Era um facto: aquela &lt;i&gt;vontade&lt;/i&gt;, ultimamente, picava-lhe o ponto todos os dias - e trabalhava (-a) em hora de expediente. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27498677-115318423042879102?l=controversamaresia-oscontos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115318423042879102'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115318423042879102'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://controversamaresia-oscontos.blogspot.com/2006/07/contraponto-tinham-avanticas-em.html' title=''/><author><name>vieira do mar</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01863960878258913114'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27498677.post-115318410926908582</id><published>2006-07-18T01:55:00.000+01:00</published><updated>2006-07-18T02:09:16.683+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;b&gt;&lt;font size=4&gt;&lt;font color="#8080FF"&gt;erro de casting&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/b&gt;&lt;p&gt;&lt;p&gt;

Hoje, convence-se de que &lt;/font&gt;&lt;i&gt;n&amp;atilde;o o viu&lt;/i&gt; porque &lt;i&gt;n&amp;atilde;o o quis ver&lt;/i&gt;, apesar da vigorosa certeza, martelada dentro dela por uma convic&amp;ccedil;&amp;atilde;o marceneira, de que, no seu campo de vis&amp;atilde;o, n&amp;atilde;o se encontrava ningu&amp;eacute;m que correspondesse &amp;agrave; ideia que fizera dele. 
Relembra o momento como se fosse o ainda. Alheia aos mist&amp;eacute;rios da semi&amp;oacute;tica escondidos na escrita cr&amp;iacute;ptica de Umberto Eco, balan&amp;ccedil;a o olhar entre as transpar&amp;ecirc;ncias do &lt;i&gt;gin&lt;/i&gt; t&amp;oacute;nico (amolecido pelos minutos a mais), as espessuras do rio &amp;agrave; sua frente e os gestos vol&amp;aacute;teis dos que chegam e se v&amp;atilde;o sentando. Abre e fecha o livro ao ritmo do pr&amp;oacute;prio p&amp;ecirc;ndulo que lhe deu o nome, ajusta os &amp;oacute;culos escuros &amp;agrave; cana do nariz com uma urg&amp;ecirc;ncia distra&amp;iacute;da, emudece com a l&amp;iacute;ngua os l&amp;aacute;bios secos da espera e vira-se de quando em vez para a porta da entrada, n&amp;atilde;o v&amp;aacute; ser surpreendida enquanto finge que n&amp;atilde;o se surpreende. &lt;br&gt;
Ele jura-lhe &lt;i&gt;que sim, que esteve l&amp;aacute;&lt;/i&gt;, que a fitou intensamente, que se corresponderam por segundos atrav&amp;eacute;s das lentes escuras com protec&amp;ccedil;&amp;atilde;o UVA; ela garante-lhe &lt;i&gt;que n&amp;atilde;o&lt;/i&gt;, que varreu a superf&amp;iacute;cie de todas as mesas, de todas as cadeiras e seus ocupantes, como a luz de um farol varre a superf&amp;iacute;cie do mar numa noite sem lua, mas &lt;i&gt;n&amp;atilde;o, n&amp;atilde;o o viu&lt;/i&gt;. Decerto ele n&amp;atilde;o fora, haveria um engano qualquer.  Ele insiste, confuso; confirma-lhe a presen&amp;ccedil;a invis&amp;iacute;vel, descreve-a, e ao seu movimento pendular; fala-lhe das suas m&amp;atilde;os a bra&amp;ccedil;os com o copo de &lt;i&gt;gin&lt;/i&gt;, do livro emaranhado de letras a fazer de mero adere&amp;ccedil;o, e do rio ( corrente de prop&amp;oacute;sito acusador, pensa ela, que lhe aponta o dedo &amp;agrave; passagem e lhe torce o nariz de desd&amp;eacute;m). &lt;br&gt;
Enquanto l&amp;aacute; est&amp;aacute;, a ela &amp;agrave;s tantas (e embora bafejada por uma maresia ventosa), falta-lhe o ar e mirraram-se-lhe os pulm&amp;otilde;es, como se Lisboa &amp;agrave; beira Tejo mais n&amp;atilde;o fosse do que um gigantesco elevador encravado entre andares; ganha-lhe terreno uma impress&amp;atilde;o levezinha de p&amp;acirc;nico, muito leve, s&amp;oacute; as pontas dos dedos do p&amp;acirc;nico, melhor, s&amp;oacute; a ponta do dedo mindinho do p&amp;acirc;nico, a ro&amp;ccedil;ar-lhe a nuca e as palmas molhadas das m&amp;atilde;os, enquanto o est&amp;ocirc;mago se lhe emperra na tentativa de centrifugar o meio &lt;i&gt;gin&lt;/i&gt; engolido sem f&amp;eacute;. &lt;br&gt;
E pronto, o arremedo do medo afia-lhe a aten&amp;ccedil;&amp;atilde;o como a ponta de um l&amp;aacute;pis e agu&amp;ccedil;a-lhe os sentidos, e ela, dotada de uma s&amp;uacute;bita super vis&amp;atilde;o e talvez de outros poderes, separa-se de si mesma e, pairando sobre as &amp;aacute;guas do rio emfrente (que lhe franze as sobrancelhas), observa, analiticamente, a apneia pendular que domina aquele corpo que lhe &amp;eacute; exterior, ora debru&amp;ccedil;ado sobre a mesa, ora a girar sobre si pr&amp;oacute;prio. V&amp;ecirc;-se sentada &amp;agrave; mesa, desgarrada, desfazada e fora do contexto daquilo tudo; fecha os olhos, cede aos murm&amp;uacute;rios do rio (que corre em baixo num tom de censura) e recusa-se a olhar &amp;agrave; volta e para al&amp;eacute;m de si pr&amp;oacute;pria, dando por finalizado o tempo de antena do faz-de-conta. &lt;br&gt;
Porque &amp;eacute; nesse momento - nesse exacto momento - que se abate sobre ela a consci&amp;ecirc;ncia de a sua presen&amp;ccedil;a ali resultar de um flagrante erro de &lt;i&gt;casting&lt;/i&gt;, do qual se teria decerto apercebido mais cedo, n&amp;atilde;o fora o barulho das luzes e aqueles arrepios todos colados &amp;agrave; pele, decalques da ideia que fizera dele. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27498677-115318410926908582?l=controversamaresia-oscontos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115318410926908582'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115318410926908582'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://controversamaresia-oscontos.blogspot.com/2006/07/erro-de-casting-hoje-convence-se-de.html' title=''/><author><name>vieira do mar</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01863960878258913114'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27498677.post-115318388567943079</id><published>2006-07-18T01:51:00.000+01:00</published><updated>2006-07-18T02:09:59.473+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;b&gt;&lt;font size=4&gt;&lt;font color="#8080FF"&gt;diz-me o teu nome&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/b&gt;&lt;p&gt;&lt;p&gt;


Chamava-se &lt;i&gt;In&amp;ecirc;s&lt;/i&gt; e ele sabia-o, desde o primeiro dos muitos &lt;i&gt;mails&lt;/i&gt; que haviam trocado. &lt;i&gt;Diz-me o teu nome&lt;/i&gt;, pedira-lhe ela a dada altura, &lt;i&gt;diz-me como te chamas&lt;/i&gt;. E ele, que assinara &lt;/font&gt;&lt;i&gt;CB&lt;/i&gt; naqueles meses em que, &amp;agrave; desgarrada, se haviam trocado mem&amp;oacute;rias foscas e aldrabices pegadas, escreveu-lhe no dia seguinte e disse-lho. Ela, que queria ca&amp;ccedil;ar-lhe os desejos e as antigas namoradas, saltou com o olhar aos pulos a parte em que ele lhe descrevia os seus dem&amp;oacute;nios em luta enquadrados no luar minguante, e aterrou logo no fim do texto. Saboreou-lhe o nome como se derretesse um quadrado de chocolate contra o c&amp;eacute;u da boca e o cora&amp;ccedil;&amp;atilde;o bateu-lhe mais forte na garganta, &amp;agrave; ideia de ter dado um passo de gigante na direc&amp;ccedil;&amp;atilde;o dele. &lt;i&gt;Pedro, Pedro..., Pedro e In&amp;ecirc;s&lt;/i&gt;, pensou, &lt;i&gt;&amp;eacute; giro, lembra uma coincid&amp;ecirc;ncia c&amp;oacute;smica, assim uma coisa de &lt;i&gt;karma.&lt;/i&gt;&lt;/i&gt;&lt;br&gt;
Horas depois, a coberto do negrume da noite (uma noite abre-latas, corta-sebes, descarada e rasante, mata-bicho e sem-vergonha) devolveu-lhe a confid&amp;ecirc;ncia com empenho inusitado. Falou-lhe dos molhos de cris&amp;acirc;ntemos que todos os anos lhe debruavam as traseiras da casa de fam&amp;iacute;lia e de como na terra dela se chamavam &lt;i&gt;despedidas de ver&amp;atilde;o&lt;/i&gt; por florirem ali mesmo, no sop&amp;eacute; do Outono. Envolveu cada palavra num calor &amp;iacute;ntimo e atrevido e anexou-lhes uma foto dos roxos e p&amp;uacute;rpura que lhe pintalgavam a entrada da cave. Mas uma foto, &lt;i&gt;calma!&lt;/i&gt;, devidamente escortanhada no &lt;i&gt;photoshop&lt;/i&gt;, estirpados os degraus de madeira (constru&amp;iacute;dos pelo pai, quarenta anos antes) e os vasos de alfazema que enfeitavam a balaustrada, n&amp;atilde;o fosse ele, sei l&amp;aacute;, ter algum um dia rondado a casa e poder reconhecer as despedidas e a lavanda, num instante de namoro com a madeira carcomida (ela queria-o, mas n&amp;atilde;o tanto, nem t&amp;atilde;o cedo).E foi ent&amp;atilde;o, embriagada pela &lt;i&gt;ideia&lt;/i&gt; de proximidade que os odores da proven&amp;ccedil;a espalhavam pelo alpendre beir&amp;atilde;o, que no fim acrescentou a primeira letra do seu primeiro apelido, um &lt;i&gt;C&lt;/i&gt;, seguido de um ponto. Queria-o a fantasiar, &lt;i&gt;C de Costa? de Correia? de Castro&lt;/i&gt; (&lt;i&gt;teria a sua gra&amp;ccedil;a&lt;/i&gt;)?, mas era ela que se interrogava se ele sentiria a mesma excita&amp;ccedil;&amp;atilde;o infantil, como um puto que antecipasse uma ida &amp;agrave; feira ou ao cinema. &lt;br&gt;
Dormiu mal, domando a custo a ideia selvagem de sair a meio da noite cidade fora, rebolou-se ao correr de cama e achou que havia sonhado com tudo menos com ele, at&amp;eacute; perceber que o &lt;i&gt;tudo&lt;/i&gt; com que havia sonhado, at&amp;eacute; aquela estranha chuva de bala&amp;uacute;stres, flores do campo e pernas de mesa, era &lt;i&gt;ele&lt;/i&gt; (porque qualquer coisa podia ser &lt;i&gt;ele&lt;/i&gt;, tudo n&amp;acute;&lt;i&gt;ele&lt;/i&gt; cabia: era uma p&amp;aacute;gina, um rosto em branco, prestes a receber um esbo&amp;ccedil;o de fei&amp;ccedil;&amp;otilde;es). &lt;br&gt;
De manh&amp;atilde;, agarrou-se at&amp;eacute; ao gabinete no centro onde trabalhava e, s&amp;oacute; depois sorver um caf&amp;eacute; aflito e de a dentada na sandes de queijo se lhe ter atravessado nas am&amp;iacute;gdalas, entrou na caixa de correio. A conversa era a mesma de sempre: fragmentos de vida, bocados de gente e ideias pouco convencionais sobre a exist&amp;ecirc;ncia, coisas que lhe aceleravam a imagina&amp;ccedil;&amp;atilde;o e a aqueciam, dentro da cela fria onde preenchia, das nove &amp;agrave;s cinco, declara&amp;ccedil;&amp;otilde;es de IRS e de IRC. Novo salto de canguru para o fim, onde leu &lt;i&gt;Miguel&lt;/i&gt;. &lt;i&gt;Miguel&lt;/i&gt;? Ele assinara &lt;i&gt;Miguel&lt;/i&gt;. &lt;i&gt;Seria Pedro Miguel&lt;/i&gt;? N&amp;atilde;o era.  Nos dias que se seguiram, os textos dele, cada vez mais pungentes e em chaga, chegaram-lhe com um nome diferente. &lt;i&gt;Paulo, Tom&amp;aacute;s, Lucas, Manuel, Diniz,&lt;/i&gt; esgotou os ap&amp;oacute;stolos, depois os reis portugueses: um nome diferente a cada manh&amp;atilde;, a rematar-lhe a carne viva, as feridas abertas que ela agora conhecia t&amp;atilde;o bem. As feridas de um cad&amp;aacute;ver sem nome, por identificar, de um qualquer &lt;i&gt;John Doe&lt;/i&gt; guardado numa morgue e dissecado por ela, &lt;i&gt;m&amp;eacute;dica legista&lt;/i&gt;, a conhecer-lhes as causas, exactas e profundas, mas n&amp;atilde;o o &lt;i&gt;sujeito&lt;/i&gt;. &lt;br&gt;
Encaixada a frustra&amp;ccedil;&amp;atilde;o e arrumada a um canto, &lt;i&gt;pronto, j&amp;aacute; est&amp;aacute;!&lt;/i&gt;, ela foi em frente e a cada nome, a cada &lt;i&gt;recuo&lt;/i&gt; depois do &lt;i&gt;avan&amp;ccedil;o&lt;/i&gt; (que eram as palavras que ele deixava cair, &lt;i&gt;o rei manda dois passos &amp;agrave; caranguejo&lt;/i&gt;), avan&amp;ccedil;ava com mais uma letra do seu apelido, que completaria pouco depois, &lt;i&gt;agora procura-me na lista, indaga-me no cento e dezoito, nas finan&amp;ccedil;as e na seguran&amp;ccedil;a social, que eu c&amp;aacute; te espero&lt;/i&gt;. E ele nada, nadinha &lt;i&gt;shiuuuu!&lt;/i&gt;, um cliente alheio e ausente num bar de &lt;i&gt;strip&lt;/i&gt;, calado que nem um rato, o fundo de um po&amp;ccedil;o, o olho do furac&amp;atilde;o, sil&amp;ecirc;ncio absoluto por entre a profus&amp;atilde;o de palavras que lhe despejava no colo. N&amp;atilde;o obstante, ela continuou, a l&amp;ecirc;-lo, de pernas abertas e alminha escancarada, a imaginar que ele entrava nela a cada confiss&amp;atilde;o nocturna e a suspirar, a inspirar, a expirar.&lt;br&gt;
Um dia, j&amp;aacute; exposta at&amp;eacute; ao osso e deitada nua ao relento dele, a pele arrepiada de galinha ao calor h&amp;uacute;mido que emanava de cada palavra que lia, ele deixou pura e simplesmente de lhe escrever. Acabou, assim, &lt;i&gt;sem mais nem porqu&amp;ecirc;&lt;/i&gt;, como diria Chico.E ela, depois de v&amp;aacute;rios &lt;i&gt;mails&lt;/i&gt; sem resposta, nos quais lhe pedira desculpa por qualquer coisinha, assinando apenas &lt;i&gt;In&amp;ecirc;s&lt;/i&gt;, l&amp;aacute; se resignou ao dia-a-dia (que voltara para a enrodilhar e esmifrar no seu torno de indiferen&amp;ccedil;a, ap&amp;aacute;tico e met&amp;oacute;dico) e voltou a usar o correio electr&amp;oacute;nico s&amp;oacute; para a troca de minutas e balancetes com os seus colegas contabilistas. &lt;br&gt;
Por acaso, casou-se com um, que lhe ofereceu a alma e lhe derramou as entranhas sobre a mesa de caf&amp;eacute; logo ao primeiro encontro, mas nunca esqueceu o estranho ap&amp;oacute;stolo-rei que a ensinou a uivar &amp;agrave; lua, nas noites em que esta se lhe oferecia de bandeja, em soturnos quartos minguantes, enquadrados no caixilho de alum&amp;iacute;nio da janela suburbana. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27498677-115318388567943079?l=controversamaresia-oscontos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115318388567943079'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115318388567943079'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://controversamaresia-oscontos.blogspot.com/2006/07/diz-me-o-teu-nome-chamava-se-innio-da.html' title=''/><author><name>vieira do mar</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01863960878258913114'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27498677.post-115318360580599335</id><published>2006-07-18T01:46:00.000+01:00</published><updated>2006-07-18T01:46:45.806+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;b&gt;&lt;font size=4&gt;&lt;font color="#8080FF"&gt;a osteoporose das palavras&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/b&gt;&lt;p&gt;&lt;p&gt;

Ultimamente, as palavras soavam-lhes esburacadas e as conversas surgiam minadas pelo vazio mais elementar. &amp;Eacute; certo que as meras conveni&amp;ecirc;ncias lhes sa&amp;iacute;am certinhas e em &lt;i&gt;fila-para-o-p&amp;atilde;o&lt;/i&gt;, umas atr&amp;aacute;s das outras, respeitosas e educadas; mas as frases sobrantes (e que eram todas as outras) traziam sempre um significante a milhas do significado. Um &lt;i&gt;ol&amp;aacute;bomdia&lt;/i&gt; que era disparado como um &lt;i&gt;fodasseaindaquiest&amp;aacute;s&lt;/i&gt;, um &lt;i&gt;adeusat&amp;eacute;amanh&amp;atilde;&lt;/i&gt; que era mais um &lt;i&gt;hojedurmonosof&amp;aacute;dasala&lt;/i&gt;, ou um &lt;i&gt;vouchegarmaistarde&lt;/i&gt; que soava a &lt;i&gt;n&amp;atilde;omapetecejantarcontigo&lt;/i&gt;. &lt;br&gt;
E assim por diante,  l&amp;aacute; iam vivendo os seus ritmos solares, separados por crateras de repente vazias e regendo-se ambos pelo mesmo dicion&amp;aacute;rio de significados ocultos, incapazes de verbalizar o rancor ou o que fosse que lhes corro&amp;iacute;a os ossos. Nunca chegaram a perceber como a borda se esboroara e haviam mergulhado naquele buraco negro aberto no meio do ch&amp;atilde;o da sala de estar; um buraco que era o oposto do amor, a &lt;i&gt;anti-mat&amp;eacute;ria&lt;/i&gt;, a &lt;i&gt;anti-carne&lt;/i&gt; ; que era, no fundo, o contr&amp;aacute;rio do &lt;i&gt;ser qualquer coisa&lt;/i&gt;.  Falavam-se enquanto olhavam para a televis&amp;atilde;o, para o jornal ou para as paredes, alheios &amp;agrave; aus&amp;ecirc;ncia das respostas que n&amp;atilde;o pediam; utilizavam-se de um l&amp;eacute;xico reduzido, forretas em adjectivos e esparsos nos verbos (fui. vou. cheguei. saio. fico. demoro. telefono. durmo.), assim satisfeitas as necessidades b&amp;aacute;sicas da fala e assegurados os servi&amp;ccedil;os m&amp;iacute;nimos do conv&amp;iacute;vio matrimonial. &amp;Agrave; greve das palavras juntara-se a greve dos toques, dos cheiros e das cumplicidades, numa paralisa&amp;ccedil;&amp;atilde;o geral que reunia todos os sindicatos do sector amor e ind&amp;uacute;strias adjacentes.&lt;br&gt;
Nenhum soubera ao certo quando a doen&amp;ccedil;a come&amp;ccedil;ara e por qual deles se disseminara primeiro, contagiando depois o outro com a virul&amp;ecirc;ncia de uma febre hemorr&amp;aacute;gica. Talvez depois daquela &amp;uacute;ltima discuss&amp;atilde;o em que ambos tinham gritado um bocadinho mais alto e dito coisas um bocadinho mais imperdo&amp;aacute;veis do que as do costume; sim, &lt;i&gt;essa!&lt;/i&gt; em que resolveram arriscar o arremesso de duas ou tr&amp;ecirc;s verdadezinhas de pouca monta, demasiado parecidas, no entanto, com granadas de m&amp;atilde;o: s&amp;oacute; fazem estragos quando as sacamos do bolso, lhes puxamos a cavilha e as atiramos com o fim de rebentar alguma coisa. Teria sido isso? Ou teriam apenas &lt;i&gt;gasto as palavras&lt;/i&gt; (como dissera o poeta) naquela puta manh&amp;atilde; de desgoverno? N&amp;atilde;o sabiam. Certo &amp;eacute; que, finda a guerrilha e o rastejo no mato conjugal, haviam se remetido ao sil&amp;ecirc;ncio. Apenas. E uns dias foram chamando os outros, baixinho, de assobio, &lt;i&gt;p&amp;eacute;antep&amp;eacute;&lt;/i&gt;, como quem n&amp;atilde;o quer a coisa e passa de manso pelo corredor, &amp;agrave; noite, at&amp;eacute; chegar &amp;agrave; cozinha sem acordar ningu&amp;eacute;m.&lt;br&gt;
Um dia, a prop&amp;oacute;sito de um recado que ele trazia para ela, foram obrigados a se atentarem de novo, olhos nos olhos, &lt;i&gt;eu-emissor-tu-receptor&lt;/i&gt;, e ali se retomaram, pegando-se onde se haviam largado, no embalo das palavras que lhes chegavam e lhes pousavam na l&amp;iacute;ngua, como as primeiras andorinhas nos beirais, primeiro nervosas e envergonhadas e, depois, em bandos, &amp;agrave;s revoadas, milhares de asas conversa fora.  E, num &amp;aacute;pice, como se engolissem litros de leite de uma vez e se atestassem de ferro e c&amp;aacute;lcio por toda a vida, curaram-se do que os minara por dentro, sem bem se aperceberem de que, por todas as palavras que haviam dito a mais, haviam sofrido o correlativo calv&amp;aacute;rio das &lt;i&gt;palavras a menos&lt;/i&gt;, num &lt;i&gt;superavit&lt;/i&gt; que redundara em &lt;i&gt;d&amp;eacute;ficit&lt;/i&gt;, e que a sobreviv&amp;ecirc;ncia do que tinham juntos era apenas uma quest&amp;atilde;o de &lt;i&gt;equil&amp;iacute;brio natural&lt;/i&gt;, como acontece com qualquer esp&amp;eacute;cie animal.&lt;br&gt;
Porque o amor, como todas as coisas periclitantes no limiar da sobreviv&amp;ecirc;ncia, &amp;eacute; uma bailarina em pontas, um trapezista, um b&amp;ecirc;bado que se poupa a testa ao candeeiro de rua, um beija-flor num ramo em dia ventoso; e esta coisa do &lt;i&gt;bem-querer-at&amp;eacute;-n&amp;atilde;o-mais-poder&lt;/i&gt;, ora lhe d&amp;aacute; de frente ora empurra de tr&amp;aacute;s, tanto puxa daqui como empurra dali e, quando chega acol&amp;aacute;, j&amp;aacute; est&amp;aacute; outra vez de partida. Porque o amor (embora eles n&amp;atilde;o o soubessem) &amp;eacute;uma balan&amp;ccedil;a antiga de mercearia com todos os seus contrapesos de ferro: neste prato, quinhentos gramas de conversa, no outro, cento e cinquenta de sil&amp;ecirc;ncio; para quatrocentos gramas de abra&amp;ccedil;os e cinquenta de chup&amp;otilde;es no pesco&amp;ccedil;o, cento e vinte gramas de t&amp;eacute;dio e trinta e cinco de coisas que nunca deveriam ser ditas. &lt;br&gt;
E foi ent&amp;atilde;o que, nesse fim de tarde, depois de esmiu&amp;ccedil;ado o recado at&amp;eacute; &amp;agrave; sua improv&amp;aacute;vel minud&amp;ecirc;ncia, numa riqueza descritiva seguramente n&amp;atilde;o prevista pelo mandante de coisa t&amp;atilde;o simples, se ofereceram um quilo de paix&amp;atilde;o avassaladora, entremeado por duzentos e cinquenta gramas de filmes no sof&amp;aacute;, cem de riso &amp;agrave; toa e setenta e cinco de interjei&amp;ccedil;&amp;otilde;es e express&amp;otilde;es idiom&amp;aacute;ticas, no caso, perfeitamente dispens&amp;aacute;veis.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27498677-115318360580599335?l=controversamaresia-oscontos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115318360580599335'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115318360580599335'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://controversamaresia-oscontos.blogspot.com/2006/07/osteoporose-das-palavras-ultimamente.html' title=''/><author><name>vieira do mar</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01863960878258913114'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27498677.post-115318338980969975</id><published>2006-07-18T01:43:00.000+01:00</published><updated>2006-07-18T01:43:09.810+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;b&gt;&lt;font size=4&gt;&lt;font color="#8080FF"&gt;SMS&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/b&gt;&lt;p&gt;&lt;p&gt;

Era &amp;oacute;bvio que ela  subestimara o poder er&amp;oacute;tico de um SMS e &lt;i&gt;baixara a guarda&lt;/i&gt;, por assim dizer. Ficou a olhar, parva feita, para as letras que rebrilhavam no ecr&amp;atilde; de cristais l&amp;iacute;quidos, &lt;i&gt;gosto mesmo de ti, mi&amp;uacute;da&lt;/i&gt;, com a v&amp;iacute;rgula no lugar certo, com todos os &lt;i&gt;&amp;eacute;fes&lt;/i&gt; e &lt;i&gt;&amp;eacute;rres&lt;/i&gt;, sem aquelas abreviaturas na moda, nenhum &lt;i&gt;amt&lt;/i&gt;, &lt;i&gt;adrt&lt;/i&gt;, &lt;i&gt;bjs&lt;/i&gt;, &lt;i&gt;LOL&lt;/i&gt;, &lt;i&gt;xis&lt;/i&gt; ou &lt;i&gt;kapas&lt;/i&gt;. Deu por si a soletrar mentalmente aquela palavra, &lt;i&gt;m&amp;ecirc;jemu, m&amp;ecirc;jeeeeemuuu&lt;/i&gt;, a demorar-se nas vogais e a amarfanh&amp;aacute;-las sob a l&amp;iacute;ngua dobrada, esmagando-as e alisando-as como um rolo compressor sobre o asfalto, enquanto o cora&amp;ccedil;&amp;atilde;o batia cada vez mais depressa e cada vez mais em baixo, &lt;i&gt;pum pum, pum pum&lt;/i&gt;.&lt;br&gt;
O &lt;i&gt;gosto de ti&lt;/i&gt;, verdade se diga, fora-lhe absolutamente fatal: &lt;i&gt;gosto&lt;/i&gt; (&lt;i&gt;mesmo&lt;/i&gt;) &lt;i&gt;de ti &lt;/i&gt;e &lt;i&gt;pumba!&lt;/i&gt;, a dor do prazer f&amp;iacute;sico n&amp;atilde;o gozado acertara-lhe direitinha na espinal medula, como uma pun&amp;ccedil;&amp;atilde;o lombar. Um &lt;i&gt;amo-te,&lt;/i&gt; teria soado a banalidade descart&amp;aacute;vel e falsa, a ro&amp;ccedil;ar o piroso; j&amp;aacute; um &lt;i&gt;adoro-te&lt;/i&gt;,  teria parecido exagerado, lembraria devo&amp;ccedil;&amp;otilde;es cegas. Mas n&amp;atilde;o. Apenas um &lt;i&gt;gosto mesmo de ti, mi&amp;uacute;da&lt;/i&gt;, como quem escreve, gosto tanto de ti que me apetece foder-te aqui e agora, gosto tanto dos teus mucos e cheiros e gl&amp;acirc;ndulas seb&amp;aacute;ceas e p&amp;ecirc;los e &amp;aacute;caros microsc&amp;oacute;picos, que me apetece identific&amp;aacute;-los, catalog&amp;aacute;-los um a um e depois sabore&amp;aacute;-los a todos; e ro&amp;ccedil;ar os teus taninos contra o c&amp;eacute;u da minha boca, gargarejando-os em seguida, como um escan&amp;ccedil;&amp;atilde;o numa prova de vinhos; gosto de ti de tal forma que n&amp;atilde;o tens hip&amp;oacute;tese nenhuma porque eu, &lt;i&gt;o lobo mau&lt;/i&gt;, quero mesmo comer-te e vou apanhar-te, porque gosto &lt;i&gt;mesmo&lt;/i&gt; de ti, gosto &lt;i&gt;mesmo&lt;/i&gt; de borrego assado no forno com batatinhas &amp;agrave;padeiro, &amp;eacute; o meu prato favorito. 
E ela, a arfar baixinho, a olhar para aquelas quatro palavras,  perfeitas, rematadas por um perfeito ponto final, o c&amp;eacute;rebro a ordenar um &lt;i&gt;delete&lt;/i&gt; ao polegar mas  este a resvalar para o &lt;i&gt;save&lt;/i&gt;, o desejo a escorregar pelas ravinas dela abaixo sem se conseguir agarrar a coisa alguma na descida, desamparado, por ali fora e ali vai ele. E, depois, a hist&amp;oacute;ria do &lt;i&gt;mi&amp;uacute;da&lt;/i&gt;. De &lt;i&gt;mulher&lt;/i&gt;, passara de repente a &lt;i&gt;mi&amp;uacute;da&lt;/i&gt;, fr&amp;aacute;gil e virginal, com vontade de lhe saltar para cima naquele exacto momento e de voltar a aprender com ele o &lt;i&gt;b&amp;ecirc;ab&amp;aacute;&lt;/i&gt; da pele, de mergulhar no visor iluminado e de o encontrar nos circuitos electr&amp;oacute;nicos, um predador &amp;agrave; ca&amp;ccedil;a dela, acoitado algures entre a mem&amp;oacute;ria do cart&amp;atilde;o SIM , o &lt;i&gt;menu&lt;/i&gt; e a lista de &lt;i&gt;contactos&lt;/i&gt;.&lt;br&gt;
Que n&amp;atilde;o restassem d&amp;uacute;vidas: cada letra de cada palavra havia sido escolhida com uma precis&amp;atilde;o cir&amp;uacute;rgica; a  intui&amp;ccedil;&amp;atilde;o dele, uma estalactite agu&amp;ccedil;ada pelo ro&amp;ccedil;agar permanente do desejo, fizera-o disparar um aut&amp;ecirc;ntico ar&amp;iacute;ete na direc&amp;ccedil;&amp;atilde;o dos centros nervosos dela: uma frase pequena, descomprometida, depurada de ju&amp;iacute;zos de valor e de figuras de estilo,  destilada no puro e simples alambique da tes&amp;atilde;o. Adivinhava-lhe a express&amp;atilde;o de gozo, triunfante e mal&amp;eacute;vola, e sentia-se cordeirinho, capuchinho e av&amp;oacute;zinha, prestes a mergulhar na floresta negra das &amp;aacute;rvores falantes e sabendo de antem&amp;atilde;o que se iria perder dentro da sua pr&amp;oacute;pria cabe&amp;ccedil;a, muito mais perigosa e trai&amp;ccedil;oeira do que a pior das inten&amp;ccedil;&amp;otilde;es dele. Porque, bem o sabia, &lt;i&gt;n&amp;oacute;s s&amp;oacute; fazemos o que queremos&lt;/i&gt; (quando n&amp;atilde;o o fazemos, &amp;eacute; apenas porque n&amp;atilde;o o quisemos o suficiente). E ela, queria-o.&lt;br&gt;
Fechou os olhos, destravou a ponta da l&amp;iacute;ngua, tocou no visor do telem&amp;oacute;vel e lambeu-o, engolindo as palavras uma a uma, como se o devorasse inteiro e, depois, ele seguisse o curso natural das coisas mastigadas, es&amp;oacute;fago abaixo, e acabasse dissolvido nos seus quimo e quilo, sem d&amp;oacute; nem piedade. Um travo amargo teimava em acompanhar-lhe o gozo da ingest&amp;atilde;o, como o sabor quase azedo de um leite esquecido ao sol. Ainda a outra m&amp;atilde;o lhe descia pelo corpo abaixo, ao ritmo desgovernado da fantasia, &lt;i&gt;gosto mesmo de ti, mi&amp;uacute;da&lt;/i&gt;, quando o telem&amp;oacute;vel tocou. Sem abrir os olhos, ela lambeu os dedos molhados e usou o indicador para atender a chamada, antecipando a voz dele, anasalada e sem ponta de gra&amp;ccedil;a. &lt;br&gt;
&lt;i&gt;N&amp;atilde;o devias ter telefonado&lt;/i&gt;, adiantou-se-lhe. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27498677-115318338980969975?l=controversamaresia-oscontos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115318338980969975'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115318338980969975'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://controversamaresia-oscontos.blogspot.com/2006/07/sms-era-o-devias-ter-telefonado.html' title=''/><author><name>vieira do mar</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01863960878258913114'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27498677.post-115318319420786092</id><published>2006-07-18T01:39:00.000+01:00</published><updated>2006-07-18T01:39:54.206+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;b&gt;&lt;font size=4&gt;&lt;font color="#8080FF"&gt;ent&amp;atilde;o, anda c&amp;aacute;&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/b&gt;&lt;p&gt;&lt;p&gt;

Esperou, paciente, que a &amp;uacute;ltima pestana dela se libertasse do peso do &lt;i&gt;rimmel&lt;/i&gt;. As suas formas de violoncelo, os cabelos pintados e o seu halo insustent&amp;aacute;vel de mulher, lembraram-lhe as de uma actriz antiga e imaginou-a a banhar-se numa fonte romana.  H&amp;aacute; muito tempo que n&amp;atilde;o a via e soube ent&amp;atilde;o que lhe sentira a falta. Esquecera-se de como ela demorava horas em frente ao espelho, como se a noite lhe pertencesse por atacado,  numa velha pantomima feita de gestos de dan&amp;ccedil;a,  suaves e cronometrados,  como o princ&amp;iacute;pio de um &lt;i&gt;pas de deu&lt;/i&gt;x ,  no qual se despia do seu eu de rua e fingia ignorar o desejo dele. Matou as saudades, algod&amp;atilde;o a algod&amp;atilde;o, &amp;oacute;leo a &amp;oacute;leo, m&amp;aacute;scara a m&amp;aacute;scara. Haviam passado tantos anos! O que fizera ela? Por onde andara, enquanto cumprira os m&amp;uacute;ltiplos rituais do dia? Resolveu quebrar o sil&amp;ecirc;ncio. &lt;i&gt;Os mi&amp;uacute;dos, j&amp;aacute; est&amp;atilde;o a dormir? &lt;/i&gt;Ela virou-se e fitou-lhe o umbigo. &lt;i&gt;J&amp;aacute;&lt;/i&gt;. Ele sorriu.&lt;i&gt; Ent&amp;atilde;o, anda c&amp;aacute;&lt;/i&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27498677-115318319420786092?l=controversamaresia-oscontos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115318319420786092'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115318319420786092'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://controversamaresia-oscontos.blogspot.com/2006/07/ent.html' title=''/><author><name>vieira do mar</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01863960878258913114'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27498677.post-115318302402433866</id><published>2006-07-18T01:37:00.000+01:00</published><updated>2006-07-18T01:37:04.023+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;b&gt;&lt;font size=4&gt;&lt;font color="#8080FF"&gt;time sharing&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/b&gt;&lt;p&gt;&lt;p&gt;


Aquilo fora um erro, &lt;i&gt;um tremendo erro&lt;/i&gt;. Haviam decidido n&amp;atilde;o vender a casa de f&amp;eacute;rias, partilh&amp;aacute;-la &amp;agrave; semana, &lt;i&gt;primeiro tu, depois eu, assim os mi&amp;uacute;dos sentem menos, est&amp;aacute; bem, mas quando chegar com eles n&amp;atilde;o te quero ver por l&amp;aacute;, j&amp;aacute; sabes, tira as tuas coisas todas, n&amp;atilde;o quero os p&amp;ecirc;los do costume a boiar no ralo nem a tampa da sanita levantada e muito menos a m&amp;aacute;quina atafulhada com loi&amp;ccedil;a seca, quero tudo impec&amp;aacute;vel, est&amp;aacute; bem, est&amp;aacute;bem, n&amp;atilde;o te preocupes, e podemos levar outras pessoas, afinal, somos livres de o fazer, sim, mas temos que ter cuidado com os mi&amp;uacute;dos, cuidado, claro, claro, h&amp;aacute; que ter a certeza, de qu&amp;ecirc;?, bem, de que a pessoa que trazemos connosco &amp;eacute;, pelo menos, uma rela&amp;ccedil;&amp;atilde;o est&amp;aacute;vel, para n&amp;atilde;o os traumatizarmos, aos mi&amp;uacute;dos, pois, sim, est&amp;aacute; certo, pois, tens raz&amp;atilde;o, ent&amp;atilde;o, fica assim combinado, uma semana a cada um. &lt;/i&gt;&lt;br&gt;
Mas, mal metera a chave &amp;agrave;porta e logo o vislumbre das paredes brancas lhe gritou aos ouvidos que aquilo fora um erro. Gritava-lhe tanto, mas tanto, aquele relance do que fora t&amp;atilde;o vivido a dois (depois a tr&amp;ecirc;s e por fim a quatro), que quase a ensurdecia, como uma frequ&amp;ecirc;ncia baix&amp;iacute;ssima que apenas ela ouvisse, um apito inaud&amp;iacute;vel que enxotasse um animal indesejado.&lt;br&gt;
Os mi&amp;uacute;dos, esses, correram por ali dentro, aliviados pelo fim da tens&amp;atilde;o que supusera a troca de m&amp;atilde;os do dia anterior, a deslarga do pai seguida do agarran&amp;ccedil;o da m&amp;atilde;e. &lt;br&gt;
A separa&amp;ccedil;&amp;atilde;o havia sido amig&amp;aacute;vel a bem das crian&amp;ccedil;as e a cordialidade entre ambos amaciara-lhes a queda, mas a aparente normalidade so&amp;ccedil;obrava sempre naqueles momentos de troca, de transvase, quando passavam de um para o outro. Porque era ent&amp;atilde;o que elas se apercebiam de que os pais j&amp;aacute; n&amp;atilde;o se sentavam lado a lado no sof&amp;aacute; da sala, e que j&amp;aacute; n&amp;atilde;o lhes bastava dar um golpe de rins para aterrarem no colo de um ou do outro: agora, cada sess&amp;atilde;o de abra&amp;ccedil;os precedia minuciosas negocia&amp;ccedil;&amp;otilde;es e cada carreirinha de beijos obedecia a uma estrat&amp;eacute;gia previamente planificada (uma ma&amp;ccedil;ada um tudo nada dolorosa, como uma &lt;i&gt;picadinha de insecto&lt;/i&gt;).&lt;br&gt;
E a vida l&amp;aacute; ia seguindo, quase sem mossas, e ali estavam eles outra vez, com a m&amp;atilde;e na casa da fam&amp;iacute;lia, no mesmo s&amp;iacute;tio onde haviam estado com o pai toda a semana anterior e com a mesma m&amp;atilde;e, na semana anterior &amp;agrave;anterior. Era um bocadinho estranho, s&amp;oacute; isso, &lt;i&gt;um bocadinho estranho,&lt;/i&gt; esta coisa de se revezarem nas brigas e nos afectos e de terem de contar a mesma hist&amp;oacute;ria duas vezes, mas era bom na mesma, afinal, f&amp;eacute;rias eram f&amp;eacute;rias e a praia estaria, como sempre, &amp;agrave; espera deles, sem nunca os desiludir (ao contr&amp;aacute;rio de &lt;i&gt;certas pessoas&lt;/i&gt;). &lt;br&gt;
Ela viu-os disparados na direc&amp;ccedil;&amp;atilde;o dos quartos e deixou-se ficar para tr&amp;aacute;s, arrastando os p&amp;eacute;s e as mem&amp;oacute;rias, que entretanto lhe explodiram &amp;agrave; frente dos olhos como um fogo de artif&amp;iacute;cio, daqueles gigantescos de comemora&amp;ccedil;&amp;atilde;o centen&amp;aacute;ria. Correu as paredes vazias e atentou nos contornos empoeirados onde antes haviam estado, emolduradas, imagens de dias mais felizes, retiradas de comum acordo porque desprovidas de sentido, &amp;agrave; luz do estado actual das coisas l&amp;aacute; deles. &lt;i&gt;Nada de pessoal&lt;/i&gt;, haviam-se pedido, &lt;i&gt;nada que nos lembre sorrisos, passeios, nem amores a quatro e muito menos a dois&lt;/i&gt;, como uma casa que se alugue a estranhos. E assim fora: entrava na sua pr&amp;oacute;pria casa como uma inquilina, a apalpar os cheiros e as formas. &lt;br&gt;
Decidira-se a dormir no sof&amp;aacute; da sala, que a ideia de se deitar na mesma cama onde, dias antes, ele havia quase de certeza estreado acrobacias de amor, n&amp;atilde;o lhe era por enquanto suport&amp;aacute;vel (devia ser mais bonita do que ela, mais nova, mais alegre, a &lt;i&gt;outra&lt;/i&gt;...). Precisaria, no entanto, de usar a casa de banho, para o que teria que atravessar o quarto de casal (de que &lt;i&gt;casal?&lt;/i&gt;). Tirou toalhas lavadas e a &lt;i&gt;necess&amp;aacute;ire&lt;/i&gt; da mala de viagem que fora de ambos (agora demasiado grande, demasiado vazia) e entrou, evitando a vis&amp;atilde;o da cama que guardava tantos suspiros e sil&amp;ecirc;ncios embrulhados, planando sobre o soalho e sustendo a respira&amp;ccedil;&amp;atilde;o como quem atravessa um p&amp;acirc;ntano sulfuroso. Quando aterrou por fim na casa-de-banho, o cheiro a ele atingiu-a como um insulto, uma ofensa grave, rasante e demolidora; poderia relatar, com a min&amp;uacute;cia de um t&amp;eacute;cnico forense, que partes do corpo dele haviam andado por onde e a fazer o qu&amp;ecirc;. &lt;br&gt;
Olhou para o espelho e viu reflectido nele o desconforto triste por se sentir ainda a metade de qualquer coisa (s&amp;oacute; um bra&amp;ccedil;o, uma perna, um s&amp;oacute; olho, meio nariz...) e apenas os risos de satisfa&amp;ccedil;&amp;atilde;o dos mi&amp;uacute;dos no quarto em frente a impediram de correr dali para fora, fechando as portas todas atr&amp;aacute;s de si, a cadeado, a sete chaves, a ferrolho e aldraba de castelo. &lt;br&gt;
Nessa noite, depois de um peda&amp;ccedil;o de &lt;i&gt;pizza&lt;/i&gt; mal engolido num espa&amp;ccedil;o sobrelotado e de duas voltas a uma feira de artesanato mexicano &lt;i&gt;made in china&lt;/i&gt;, depois de adormecida a excita&amp;ccedil;&amp;atilde;o infantil &amp;agrave; custa de promessas de praia, abancou sorrateiramente no sof&amp;aacute; da sala, com um len&amp;ccedil;ol por cima das pernas e o comando da televis&amp;atilde;o na m&amp;atilde;o, de costas para o corredor e disposta a ignorar a verborreia sussurante do passado que se fazia ouvir dentro dela, como burburinho de mercado por janela entreaberta.  E foi ent&amp;atilde;o que, a meio de um epis&amp;oacute;dio das mar&amp;eacute;svivas, o mais novo lhe apareceu &amp;agrave; frente num queixume estremunhado de sede e, ao v&amp;ecirc;-la ali deitada, lhe perguntou por entre bocejos, &lt;i&gt;m&amp;atilde;e, porque &amp;eacute; que tu e o pai, agora, dormem sempre sozinhos no sof&amp;aacute;da sala, quando nos trazem para a casa de praia? &lt;/i&gt;&lt;br&gt;
E, no escuro, ela sorriu, &lt;i&gt;v&amp;aacute;, anda l&amp;aacute; que eu dou-te um copo de &amp;aacute;gua. &lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27498677-115318302402433866?l=controversamaresia-oscontos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115318302402433866'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115318302402433866'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://controversamaresia-oscontos.blogspot.com/2006/07/time-sharing-aquilo-fora-um-erro-um.html' title=''/><author><name>vieira do mar</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01863960878258913114'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27498677.post-115318281332097667</id><published>2006-07-18T01:33:00.000+01:00</published><updated>2006-07-18T01:33:33.320+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;b&gt;&lt;font size=4&gt;&lt;font color="#8080FF"&gt;no aeroporto&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/b&gt;&lt;p&gt;&lt;p&gt;

Ele esperava, m&amp;atilde;os nos bolsos, m&amp;atilde;os fora dos bolsos, os dedos ao correr da bainha do casaco num samba tr&amp;ocirc;pego de caixa de f&amp;oacute;sforos; os olhos ol&amp;iacute;mpicos, &lt;i&gt;a sprintar a sprintar, &lt;/i&gt; no &lt;i&gt;placard&lt;/i&gt; das chegadas, para c&amp;aacute; para l&amp;aacute;, para c&amp;aacute; para l&amp;aacute;, &lt;i&gt;delayed, on time, cancelled, delayed, on time, arrived, arrived&lt;/i&gt;. Gastara j&amp;aacute; o ma&amp;ccedil;o que n&amp;atilde;o fumara, &lt;i&gt;nunca fumara&lt;/i&gt;, que jeito lhe daria, agora, um viciozito, um andarilho, um apoio qualquer,  para os sentidos em alvoro&amp;ccedil;o que lhe tricotavam a pele de galinha.
Haviam passado tr&amp;ecirc;s meses. &lt;i&gt;Tr&amp;ecirc;s meses&lt;/i&gt;, apenas, e os olhos dela &lt;i&gt;sabia-os&lt;/i&gt; castanhos porque conhecia &lt;i&gt;a cor castanha&lt;/i&gt;, que era a do chocolate derretido nas m&amp;atilde;os daquele mi&amp;uacute;do colado &amp;agrave; m&amp;atilde;e desatenta,  que tamb&amp;eacute;m esperava algu&amp;eacute;m (Ou, se calhar, esperava, como ele, os contornos esbatidos de algu&amp;eacute;m). Mas, na verdade,  n&amp;atilde;o recordava os olhos dela, esquecera as especificidades dos rebordos exteriores, o palpebrar afirmativo, as pestanas loquazes; esquecera-se dos segredos escondidos naquele pestanejar altaneiro, de quem olha do cimo da torre da Igreja a paisagem ao redor, em &amp;oacute;bvio conluio com as cegonhas residentes e abarcando todas as coisas. Sabia que eram &lt;i&gt;castanhos&lt;/i&gt; e que eram &lt;i&gt;olhos&lt;/i&gt;, os dela,  nada mais. Hesitava igualmente  na cor dos cabelos... cedeu &amp;agrave; tenta&amp;ccedil;&amp;atilde;o de espreitar a foto tipo passe&lt;i&gt;, &lt;/i&gt; que dormia e ressonava num recanto da carteira, &lt;i&gt;n&amp;atilde;o podia ter-se esquecido, caramba&lt;/i&gt;! Algures entre o ruivo e louro, queimados pelo sol, um molho de trigo tardio,  por colher, &lt;i&gt;seria natural, o tom dos cabelos dela?&lt;/i&gt;Que absurdo, tanto tempo juntos e nunca se lembrara de lho perguntar... Cheiravam bem, cheiravam &lt;i&gt;sempre&lt;/i&gt; bem e ele sabia a qu&amp;ecirc;, mas n&amp;atilde;o conseguia reconstituir-lhes o odor, como florista constipada que cheirasse uma rosa. As m&amp;atilde;os eram compridas, sim, &lt;i&gt;espera&lt;/i&gt;, mas os dedos eram curtos, &lt;i&gt;ent&amp;atilde;o, decide-te, m&amp;atilde;os compridas e dedos curtos? Olha, que se lixe. &lt;/i&gt;&lt;br&gt;
E, de repente, l&amp;aacute; estava ela,  &lt;i&gt;arrived&lt;/i&gt;, assim, escarrapachado, a piscar, no &lt;i&gt;placard&lt;/i&gt;, e pronto. Face &amp;agrave; inevitabilidade do reencontro, deu-lhe o p&amp;acirc;nico, quis fugir, faltou-lhe o ar; inspirou fundo,  limpou-se do suor que lhe cascateava pelo corpo mas escapou-se-lhe um fio salgado, que escorreu v&amp;eacute;rtebras abaixo. Como haviam tido a veleidade de achar que um oceano entre eles, durante alguns meses, seria coisa pouca, um mosquito fraquinho a picar em v&amp;atilde;o a pele de um amor que eles pensavam endurecido, resistente &amp;agrave;s n&amp;oacute;doas, curtido pelos anos? &lt;br&gt;
Que ing&amp;eacute;nuo fora. Onde estava agora a imagem dela, onde? Quem era aquela do lado de l&amp;aacute; do vidro da alf&amp;acirc;ndega, &amp;agrave; espera das malas onde trazia consigo as mem&amp;oacute;rias dos meses que eram s&amp;oacute; dela e que n&amp;atilde;o eram dele? Traria dentro de alguma a cor dos olhos de algu&amp;eacute;m, um pestanejar corrido  ao sabor de beijos roubados? E escondido na &lt;i&gt;necessaire&lt;/i&gt;, entre a a &amp;aacute;gua de col&amp;oacute;nia e o creme de noite, traria o cheiro palp&amp;aacute;vel dos cabelos de quem? E dentro do livro que viera a ler no avi&amp;atilde;o, a marcar a p&amp;aacute;gina, estaria a lembran&amp;ccedil;a perfeita de uma outra m&amp;atilde;o, com dedos medidos a regra e esquadro? Talvez. Talvez a dist&amp;acirc;ncia, afinal, n&amp;atilde;o consolide nem prove nada, talvez seja  filha da m&amp;atilde;e e se de finja amiga e deposit&amp;aacute;ria de tesouros, mas de facto nos impe&amp;ccedil;a de nos desvelarmos e de acarinhar o que est&amp;aacute; longe. 
Pronto, estava decidido: a dist&amp;acirc;ncia era, sim, o maior de todos os males, o inimigo declarado, mas a &lt;i&gt;dist&amp;acirc;ncia &lt;/i&gt;&lt;i&gt;f&amp;iacute;sica&lt;/i&gt;, mesmo, aquela feita de passos em sentido contr&amp;aacute;rio, aquela  que transforma &amp;iacute;ntimos insepar&amp;aacute;veis em &lt;i&gt;estranhosinimigos&lt;/i&gt;, costas com costas, contando e andando, &lt;i&gt;um, dois, tr&amp;ecirc;s..., &lt;/i&gt;sempre a contar e sempre andar , cada vez mais longe um do outro, at&amp;eacute; se esquecerem das raz&amp;otilde;es pelas quais se queriam bater e se esfumarem no nevoeiro matinal sob o peso da lonjura. &lt;br&gt;
Lixada, esta coisa da lonjura. Dos &lt;i&gt;quil&amp;oacute;metros entre&lt;/i&gt;. Nunca deixem que lhes digam que n&amp;atilde;o &amp;eacute; assim, que um verdadeiro amor resiste  a meses, a anos e a quil&amp;oacute;metros a fio. &lt;i&gt;O tanas, &amp;eacute; o que &amp;eacute;&lt;/i&gt;.  Porque os amores nunca s&amp;atilde;o um s&amp;oacute;, s&amp;atilde;o dois, tr&amp;ecirc;s, v&amp;aacute;rios, e solidificam uns sobre os outros: se, quais arque&amp;oacute;logos, os desenterr&amp;aacute;ssemos a todos, cavando para baixo e na vertical, e se os dat&amp;aacute;ssemos com carbono como ossadas, ver&amp;iacute;amos que se encontram em camadas sobrepostas de mil-folhas, agora um, depois o outro, que cobre o primeiro, um terceiro, que enterra o segundo, e por a&amp;iacute; fora. &lt;br&gt;
&amp;Eacute; que a nossa natureza, carente e voraz, espreita sempre por uma aberta para ferrar o dente e n&amp;atilde;o est&amp;aacute; para grandes esperas nem solil&amp;oacute;quios de aus&amp;ecirc;ncia.. Os bra&amp;ccedil;os pedem abra&amp;ccedil;os, as pernas pedem encostos, belisc&amp;otilde;es e entrepernas, os olhos gritam por queixos, unhas pintadas e pontas de narizes queimadas pelo sol, o sexo demanda l&amp;iacute;nguas, m&amp;atilde;os, arrepios e outros sexos, enquanto a cabe&amp;ccedil;a demanda tudo isso e muito mais.&lt;br&gt;
O Amor &amp;eacute; f&amp;aacute;cil, &amp;eacute; um gajo dado, oferecido, est&amp;aacute; sempre dispon&amp;iacute;vel, faz-se promo&amp;ccedil;&amp;atilde;o, vende-se com desconto, &amp;eacute; de quem o apanhar. &amp;Eacute; planta baratucha, atrofiada em vaso de pl&amp;aacute;stico, das que dispensam estufas e resistem a geadas, pedindo gotinhas de &amp;aacute;gua e bocadinhos de luz. &lt;i&gt;Que o que o Amor almeja, no fundo, &amp;eacute; apenas fotoss&amp;iacute;ntese&lt;/i&gt;. Fotoss&amp;iacute;ntese e basta: toma l&amp;aacute;, d&amp;aacute; c&amp;aacute;, troca por troca, est&amp;aacute;s bonita, j&amp;aacute; sabes da &amp;uacute;ltima? vamos almo&amp;ccedil;ar? despe-me as cuecas, faz-me uma massagem, senta-te aqui, fiz-te uma torrada, hoje n&amp;atilde;o quero, a tua m&amp;atilde;e &amp;eacute; uma chata, beija-me a nuca, vamos ao cinema, n&amp;atilde;o me interrompas, abre as pernas, muda de canal, queres sumo ou cerveja? hoje passeias tu o c&amp;atilde;o, d&amp;aacute;-me uma massagem, j&amp;aacute; leste isto? amanh&amp;atilde; vamos de f&amp;eacute;rias, trouxeste-me o que te pedi? &lt;br&gt;
&lt;i&gt;Olha, &amp;eacute; ela, est&amp;aacute; ver se me v&amp;ecirc;, parece diferente, n&amp;atilde;o percebo se para melhor ou pior, n&amp;atilde;o lhe vou dizer nada, ser&amp;aacute; que me reconhece?&lt;/i&gt;Enquanto ele fingia inspeccionar, com interesse de antrop&amp;oacute;logo, o cromatismo dos trajes da queniana que o circundava com o seu per&amp;iacute;metro de cintura alargada, ela vislumbrou-o e, topando-lhe a farsa, aproximou-se dele e murmurou-lhe um psst ao ouvido direito. Ele virou-se, num surpreendido quase perfeito (n&amp;atilde;o fora aquela antecipa&amp;ccedil;&amp;atilde;o de um mil&amp;eacute;simo de segundo) e abriu o rosto num sorriso de boas vindas de guia tur&amp;iacute;stico com letreiro ao pesco&amp;ccedil;o. Abra&amp;ccedil;aram-se circunstancialmente, deram-se dois beijinhos na cara, ele pegou-lhe no carrinho que lhe transportava as malas e dirigiram-se ao parque de estacionamento, calados.&lt;br&gt;
&lt;i&gt;N&amp;atilde;o a conhe&amp;ccedil;o, j&amp;aacute; n&amp;atilde;o sei quem &amp;eacute;&lt;/i&gt;. Hesitou no que fazer. &amp;Agrave;s vezes, pensou, mais vale depositar uma nova camada sobre a anterior e come&amp;ccedil;ar de novo, porque o nosso eu antigo, quando cristaliza no que faltou ou houve a mais, n&amp;atilde;o permite retomas nem acrescentos. O que quer que tenha existido antes, est&amp;aacute; enterrado para data&amp;ccedil;&amp;atilde;o futura, essa &amp;eacute; que &amp;eacute;essa. Pousou o carrinho, olhou para ela, sorriu-lhe de verdade, com os olhos todos, fixou-lhe as p&amp;aacute;lpebras para todo o sempre (pensou-o ent&amp;atilde;o) e disparou-lhe, com a solenidade pr&amp;oacute;pria de um desconhecido, &lt;i&gt;Ol&amp;aacute;, prazer em conhecer-te&lt;/i&gt;. Ela percebeu-lhe o esquema, a manobra, o reviralho, o g&amp;eacute;nio da ideia, a inten&amp;ccedil;&amp;atilde;o e a perfei&amp;ccedil;&amp;atilde;o de tudo aquilo e retorquiu, &lt;i&gt;Ol&amp;aacute;, o prazer &amp;eacute; todo meu. &lt;/i&gt;E ele,&lt;i&gt; Queres jantar comigo? &lt;/i&gt;Ela&lt;i&gt;, Terei de consultar a minha disponibilidade de agenda.&lt;/i&gt;&lt;br&gt;
Explodiu-lhes, ent&amp;atilde;o, um fogo de riso de artif&amp;iacute;cio que lhes abriu, &lt;i&gt;ziiip!&lt;/i&gt;, como um fecho de correr, o peito at&amp;eacute; ent&amp;atilde;o oprimido pelas mem&amp;oacute;rias esquecidas que ambos haviam passado o dia a catar no p&amp;oacute;, como duas galinholas tontas, e l&amp;aacute; foram, descobrir-se, num estranho &lt;i&gt;blind date&lt;/i&gt;. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27498677-115318281332097667?l=controversamaresia-oscontos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115318281332097667'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115318281332097667'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://controversamaresia-oscontos.blogspot.com/2006/07/no-aeroporto-ele-esperava-m-foram.html' title=''/><author><name>vieira do mar</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01863960878258913114'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27498677.post-115318258961881666</id><published>2006-07-18T01:29:00.000+01:00</published><updated>2006-07-18T01:29:49.616+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;b&gt;&lt;font size=4&gt;&lt;font color="#8080FF"&gt;a verdade, basicamente&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/b&gt;&lt;p&gt;&lt;p&gt;

Pensara em dizer-lho um milh&amp;atilde;o de vezes; a vontade de lhe vomitar em cima o que acontecera naquela noite, assaltava-o nos momentos mais estranhos: enquanto ela lia uma revista sentada na sanita, cortava as unhas dos p&amp;eacute;s ou pintava as das m&amp;atilde;os, ou enquanto desembara&amp;ccedil;ava o cabelo em frente ao espelho. Era como se a insignific&amp;acirc;ncia dos rituais di&amp;aacute;rios dela pudesse, de alguma forma, tornar pequeno e de somenos aquilo que elel he queria revelar, como se fosse algo igualmente mec&amp;acirc;nico e descart&amp;aacute;vel, &lt;i&gt;venha da&amp;iacute; outra coisa qualquer e sigamos para bingo&lt;/i&gt;. &lt;br&gt;
Uma vez, pensara em dizer-lho enquanto ela se depilava numa opera&amp;ccedil;&amp;atilde;o demorada de cera a frio. Olhava-a, febril (ela, concentrada que estava naquele &lt;i&gt;timing&lt;/i&gt; perfeito do espalha-arranca), antevendo o momento em que lhe despejaria em cima o seu balde de revela&amp;ccedil;&amp;otilde;es sujas, qual porteira distra&amp;iacute;da.&lt;br&gt;
O que ele n&amp;atilde;o supunha era que ela, careca de saber da ang&amp;uacute;stia culposa que lhe ro&amp;iacute;a as noites, se concentrava sempre um bocadinho mais nas unhas, nos p&amp;eacute;s, nos cabelos e se mostrava totalmente indispon&amp;iacute;vel para a ab&amp;eacute;bia que ele queria que ela lhe desse. Se entrava na casa de banho, ela sa&amp;iacute;a de rajada em busca de um creme esquecido e, se se sentava ao seu lado na cama, a ela, assomava-lhe um sono s&amp;uacute;bito que lhe toldava a percep&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Outras vezes, quando ele estava quase, quase, &lt;i&gt;lembras-te daquela noite em que eu...&lt;/i&gt;, ela atalhava, ceifando-lhe as palavras tossidas por entre suores frios, &lt;i&gt;passas-me o papel higi&amp;eacute;nico, por favor?&lt;/i&gt;, ao que se seguia uma reflex&amp;atilde;o sobre a pasta de papel e o seu peso nas ind&amp;uacute;strias poluidoras. E ele l&amp;aacute; ia adiando a confiss&amp;atilde;o, adiando uma e outra vez, aquele menir que lhe esmagava o esterno sem quase o deixar respirar.&lt;br&gt;
A hip&amp;oacute;tese de &lt;i&gt;n&amp;atilde;o lho dizer de todo &lt;/i&gt;nunca se colocara, pois ele era daqueles que cultivava a &lt;i&gt;verdade&lt;/i&gt;a qualquer custo, que a mimava e alimentava como a uma filha ou a uma planta, gerada que fora no seio dos pergaminhos familiares. Assapado no totalitarismo do conceito de &lt;i&gt;verdade&lt;/i&gt; como sendo algo de &lt;i&gt;absoluto&lt;/i&gt; e v&amp;aacute;lido por si s&amp;oacute;, escapou-lhe a evid&amp;ecirc;ncia: de que a dita tamb&amp;eacute;m pode correr subterr&amp;acirc;nea, como um len&amp;ccedil;ol fre&amp;aacute;tico que segue manso e n&amp;atilde;o deve vir ao de cima nem, muito menos, jorrar tipo &lt;i&gt;geiser&lt;/i&gt;, sob pena de inunda&amp;ccedil;&amp;atilde;o diluviana dos sentimentos e de todos os seus anexos. &lt;br&gt;
N&amp;atilde;o intuiu, ele, que alturas h&amp;aacute; em que a &lt;i&gt;verdade&lt;/i&gt;, para o ser, basta ser pressentida, sem precis&amp;atilde;o de se exibir nua num &lt;i&gt;striptease&lt;/i&gt; de perna aberta &amp;agrave; volta de um var&amp;atilde;o, em exposi&amp;ccedil;&amp;atilde;o pornogr&amp;aacute;fica e a arfar sobre os clientes os seus sonhos distantes; e provou assim desconhecer o poder de devasta&amp;ccedil;&amp;atilde;o nuclear de uma &lt;i&gt;verdade&lt;/i&gt;que se queria &lt;i&gt;calada&lt;/i&gt; - um poder, destruidor n&amp;atilde;o apenas dela pr&amp;oacute;pria, mas tamb&amp;eacute;m de todas as outras verdades que a vida deles transportava em compartimentos interiores e malas de viagem e que, num segundo, se desfizeram em poeira at&amp;oacute;mica.&lt;br&gt;
Ela tentou dizer-lho: a cada vez que desatava a discorrer sobre o peso do papel higi&amp;eacute;nico no meio ambiente ela estava a avis&amp;aacute;-lo, a enviar-lhe sinais para que guardasse as palavras bem embrulhadinhas dentro dele, para que as dobrasse em quatro, depois em oito e por fim em dezasseis, para que fizesse com elas um &lt;i&gt;quantos queres&lt;/i&gt;, um avi&amp;atilde;o, um barquinho ou uma bola de cuspo, e as atirasse ao ar ou lhes puxasse fogo, que ela n&amp;atilde;o as queria. S&amp;oacute; que, quanto mais ela fugia, mais ele corria atr&amp;aacute;s dela, desalmado, a desfraldar-lhe a hist&amp;oacute;ria daquela noite em estandarte, um vozeir&amp;atilde;o &amp;eacute;pico de valqu&amp;iacute;ria a querer sair-lhe do peito e ela sempre a tapar os ouvidos, &lt;i&gt;lailaraiquen&amp;atilde;oquerosaber&lt;/i&gt;.&lt;br&gt;
Que burro fora, ele. Sempre com a boca cheia de &lt;i&gt;verdade&lt;/i&gt;, para aqui e para acol&amp;aacute;: sobrevaloriza&amp;ccedil;&amp;atilde;o n&amp;iacute;tida. Falta de senso. De sentido das propor&amp;ccedil;&amp;otilde;es. De instinto de sobreviv&amp;ecirc;ncia amoroso. N&amp;atilde;o teriam sido as fugas dela mais do que suficientes para o redimir? N&amp;atilde;o poderia ele ter visto, na m&amp;iacute;mica perfeita do sil&amp;ecirc;ncio dela (um sil&amp;ecirc;ncio atulhado de futilidades) o perd&amp;atilde;o e a fuga em frente, o beijo do esquecimento, a passagem secreta para os dias seguintes? Poderia, mas n&amp;atilde;o o fez. 
Um dia, enquanto ela se secava &amp;agrave; pressa de um duche tardio, ele cercou-a e disparou sem d&amp;oacute; nem piedade, &lt;i&gt;lembras-te daquela noite em que eu...&lt;/i&gt; E ela, apanhada de surpresa entre a &amp;aacute;gua que lhe escorria e a procura dos chinelos de quarto, n&amp;atilde;o foi a tempo de sacar assunto e viu-se obrigada a engolir a verdade com todos os acompanhamentos, batata frita, arroz e salada, uma anor&amp;eacute;tica for&amp;ccedil;ada ao alimento. Uma verdade de merda, diga-se: est&amp;uacute;pida, como tudo o que &amp;eacute; fortuito, e in&amp;uacute;til, como tudo o que nada significa de facto.
P&amp;ocirc;s-lhe as malas &amp;agrave; porta e nunca mais se viram. &lt;p&gt;
Ep&amp;iacute;logo.&lt;br&gt;
Ele sentiu-se culpado, mas nunca percebeu que o crime maior que praticara n&amp;atilde;o fora o da trai&amp;ccedil;&amp;atilde;o mas sim o da soberba, ao arrogar-se uma &lt;i&gt;superioridade moral&lt;/i&gt; sobre ela (que n&amp;atilde;o detinha): ele contara-lhe a verdade daquela noite vazia, n&amp;atilde;o porque achasse que ela merecia sab&amp;ecirc;-la, mas por &lt;i&gt;uma quest&amp;atilde;o de princ&amp;iacute;pio&lt;/i&gt;; n&amp;atilde;o porque a respeitasse acima de todas as coisas, mas porque n&amp;atilde;o se podia permitir perder o respeito que sentia por si pr&amp;oacute;prio.Ela, por sua vez, n&amp;atilde;o desarvorou em f&amp;uacute;rias de mulher enganada nem em gritarias de &lt;i&gt;culebr&amp;oacute;n&lt;/i&gt; (coisa que nem lhe faria o g&amp;eacute;nero); passou, apenas, a olh&amp;aacute;-lo como o que ele realmente fora: um idiota perdul&amp;aacute;rio, um pobre esbanjador, que deitara fora tanto por t&amp;atilde;o pouco. &lt;br&gt;
No fundo, limitou-se a achar que ele (n&amp;atilde;o fora aquela &lt;i&gt;rectid&amp;atilde;o&lt;/i&gt; transpirada por todos os seus poros, sempre t&amp;atilde;o honestos e verticais), poderia mas era ter enfiado a puta da &lt;i&gt;verdade&lt;/i&gt; em v&amp;aacute;rios outros s&amp;iacute;tios, que n&amp;atilde;o entre eles os dois.
Basicamente. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27498677-115318258961881666?l=controversamaresia-oscontos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115318258961881666'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115318258961881666'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://controversamaresia-oscontos.blogspot.com/2006/07/verdade-basicamente-pensara-em-dizer.html' title=''/><author><name>vieira do mar</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01863960878258913114'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27498677.post-115318236321805859</id><published>2006-07-18T01:26:00.000+01:00</published><updated>2006-07-18T02:15:36.473+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;b&gt;&lt;font size=4&gt;&lt;font color="#8080FF"&gt;de noite na cama &lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/b&gt;&lt;font size=4&gt;&lt;b&gt;*&lt;/font&gt;&lt;/b&gt;&lt;p&gt;&lt;p&gt;


&lt;div align="justify"&gt;Os dois de carranca aviada, costas com costas (coisa a&amp;iacute; de meio cent&amp;iacute;metro), numa simetria perfeita se vista de cima, das alturas. De olhos pousados no escuro, simulavam a respira&amp;ccedil;&amp;atilde;o regular de um sono h&amp;aacute; muito despejado nos sonhos: o fito n&amp;atilde;o era convencer o outro de que dormiam de facto, mas sim de que o outro percebesse que o desprezo era tal e a vontade de estar ali t&amp;atilde;o pouca, que antes fingir que dormiam do que correrem o risco de serem incomodados. Era pela necessidade de lho fazer ver, a ela, que o p&amp;eacute; dele balou&amp;ccedil;ava fora da cama, propagando o movimento em ondas pelo colch&amp;atilde;o e que a m&amp;atilde;o dela se abria e fechava, agarrando o escuro da noite e obrigando-o a sentir a desloca&amp;ccedil;&amp;atilde;o de ar. Prolongada que fosse por muito mais tempo a ignor&amp;acirc;ncia do outro e um deles desataria certamente a assobiar... &lt;br&gt;
Uma melga zumbiu algures e logo as m&amp;atilde;os dele se encontraram num &lt;i&gt;pl&amp;aacute;s!&lt;/i&gt; inesperado a m&amp;iacute;limetros do ouvido dela, assustando-a de morte. Mas ela arrumou sob a l&amp;iacute;ngua seca o &lt;i&gt;filhodaputa!&lt;/i&gt;que quase lhe fugiu e manteve-se im&amp;oacute;vel sob os len&amp;ccedil;&amp;oacute;is, ele esperando em v&amp;atilde;o o derrame de ofensas, como quem espera a passagem de autocarro em dia de greve. &lt;br&gt;
Depois ela fungou, fingindo alergia ou constipa&amp;ccedil;&amp;atilde;o s&amp;uacute;bita e a seguir esticou a perna, acometida de uma falsa ca&amp;icirc;mbra, simulando o abafo de uma dor que n&amp;atilde;o sentia, esperando assim gerar nele uns fiapos de simpatia ou um derrapan&amp;ccedil;o na compaix&amp;atilde;o. Nada. 
Ele afastou-se alguns mil&amp;iacute;metros ainda mais do calor dela, resolvendo mostrar-lhe que afinal estava acordado, ela com aquele maldito pigarreio e o esticar de perna, que ma&amp;ccedil;ada, e acendeu a luz. Manteve um ar misterioso enquanto via as horas, como que a dizer-lhe que era muito importante saber as horas porque talvez aguardasse com &amp;acirc;nsia o momento de qualquer coisa que ela n&amp;atilde;o sabia porque n&amp;atilde;o lhe respeitava, apagou a luz com ar satisfeito e acondicionou novamente o corpo na posi&amp;ccedil;&amp;atilde;o fetal, aproximando-se das costas dela com o cuidado e a precis&amp;atilde;o de um capit&amp;atilde;o de navio numa aproxima&amp;ccedil;&amp;atilde;o &amp;agrave;amurada do cais, mantendo os anteriores cinco mil&amp;iacute;metros, numa acostagem perfeita. &lt;br&gt;
E ela, inquieta com o cheiro a derrota que invadia o quarto, marreca de saber que perdia sempre, nestas medi&amp;ccedil;&amp;otilde;es de for&amp;ccedil;a bruta por entre os len&amp;ccedil;&amp;oacute;is, resolveu esfor&amp;ccedil;ar-se um bocadinho mais. Abriu a luz, ala para a casa-de-banho e vai de porta fechada na cara dele. Esperou meia d&amp;uacute;zia de segundos (poucos, se n&amp;atilde;o ele perderia o interesse e adormeceria de boca aberta, a ressonar para o tecto os cansa&amp;ccedil;os do dia) e cama com ela, para onde se atirou com estardalha&amp;ccedil;o suficiente para lhe assegurar a vig&amp;iacute;lia por mais um bocadinho.  Pretendeu calcular mal a dist&amp;acirc;ncia e aterrou com uma perna em cima da anca dele, que simulou um enfado-quase-nojo, descartando-a de modo urgente enquanto ela se afastava, como que queimada pela pele dele. Acabaram a pantomima apartados mais meio cent&amp;iacute;metro, que agora no total j&amp;aacute; perfazia um. &lt;br&gt;
Segundos depois, ele levantou-se e ela pensou, &lt;i&gt;pronto, vai para a sala e eu fico aqui acordada, e agora?, plano B!, plano B!&lt;/i&gt;, colou o ouvido ao colch&amp;atilde;o e sentiu os p&amp;eacute;s dele descal&amp;ccedil;os a reverberarem-lhe no peito, &lt;i&gt;queres ver que vai mesmo? n&amp;atilde;o acredito, por favor n&amp;atilde;o v&amp;aacute;s!&lt;/i&gt;, ele saiu do quarto, fechando-lhe a porta atr&amp;aacute;s de si e ela a engolir um grito, &lt;i&gt;obrigas-me a levantar, sabes que detesto portas fechadas,&lt;/i&gt; levantou-se para abrir a porta e deu de caras com ele, &lt;i&gt;fui buscar um copo de &amp;aacute;gua&lt;/i&gt;, justificou-se, &lt;i&gt;ah! para a pr&amp;oacute;xima n&amp;atilde;o me feches a porta, sabes que eu n&amp;atilde;o gosto, desculpa n&amp;atilde;o me lembrei&lt;/i&gt;, pumba!, mais um ponto de avan&amp;ccedil;o, &lt;i&gt;sacana&lt;/i&gt;, e deitou-se fingindo saciedade, &lt;i&gt;que n&amp;atilde;o preciso de mais nada para um soninho descansado&lt;/i&gt;. 
Derrotada, ela ajeitou a almofada num &lt;i&gt;agora&amp;eacute;que&amp;eacute;&lt;/i&gt;, a raiva desvastando-lhe a flor da pele, acelerando-lhe as sinapses e o bater do cora&amp;ccedil;&amp;atilde;o, pum pum pum, &lt;i&gt;queresverqueogajoaindaouve&lt;/i&gt; e, rendida &amp;agrave; evid&amp;ecirc;ncia do desprezo dele, fechou os olhos, decidida a dormir a s&amp;eacute;rio. Mas logo lhe sentiu o p&amp;eacute;, tremelicando-lhe no tornozelo e suspirou, &lt;i&gt;l&amp;aacute;vamosn&amp;oacute;soutravez&lt;/i&gt;. &lt;br&gt;
E ent&amp;atilde;o, perante a s&amp;uacute;bita consci&amp;ecirc;ncia da infantilidade bacoca e do rid&amp;iacute;culo daquela valsa de vontades no escuro, daquela tola semi&amp;oacute;tica de colch&amp;atilde;o, atacou-lhes o riso. Mas um ataque daqueles s&amp;eacute;rios, repescados das entranhas e fisgados para fora com a for&amp;ccedil;a e a per&amp;iacute;cia de um pescador de espadarte em dia sim. Atravessados pelo p&amp;acirc;nico, engoliam o ar &amp;agrave;s golfadas, &lt;i&gt;para dentro! para dentro!&lt;/i&gt;, mas era tarde de mais: a cama desatou num estremecimento incontrolado e ele era cabeceira, colch&amp;atilde;o, ombros, gargantas, pesco&amp;ccedil;os e m&amp;atilde;os, num terramoto de riso que rebentou as escalas, de mercali, de richter e o diabo a sete. Escorreram-lhes l&amp;aacute;grimas cara abaixo, cuspiram-se gargalhadas na cara um do outro e, noestertor da alegria que se lhes vazava por todos os poros como bexigas furadas, misturaram-se-lhes pernas, bocas, p&amp;eacute;s, bacias, externos, cabelos, l&amp;aacute;grimas e fluidos v&amp;aacute;rios. &lt;br&gt;
Escusado ser&amp;aacute; dizer que adormeceram abra&amp;ccedil;ados e acordaram tarde que se fartaram, dia seguinte. &lt;p&gt;&lt;p&gt;
&lt;font size=2&gt;* de uma can&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Caetano Veloso&lt;/font&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27498677-115318236321805859?l=controversamaresia-oscontos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115318236321805859'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115318236321805859'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://controversamaresia-oscontos.blogspot.com/2006/07/de-noite-na-cama-os-dois-de-carranca.html' title=''/><author><name>vieira do mar</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01863960878258913114'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27498677.post-115318213793378808</id><published>2006-07-18T01:22:00.000+01:00</published><updated>2006-07-18T01:22:17.936+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;b&gt;&lt;font size=4&gt;&lt;font color="#8080FF"&gt;a arte da fuga&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/b&gt;&lt;p&gt;&lt;p&gt;

Conseguida a custo a entrega tempor&amp;aacute;ria dos mi&amp;uacute;dos, encontram-se a meio caminho entre a casa dos pais dela e o escrit&amp;oacute;rio dele. Acorrem sem pressa &amp;agrave;bilheteira e aceitam sem reclamar as sobras que a mulher sisuda do lado de l&amp;aacute; do vidro lhes imp&amp;otilde;e, afinal, &amp;eacute; segunda-feira e est&amp;atilde;o atrasados, n&amp;atilde;o t&amp;ecirc;m por que se queixar. D&amp;atilde;o por eles nos lugares mais escondidos da sala mais rec&amp;ocirc;ndita de um mega-complexo rec&amp;eacute;m inaugurado, enfronhados no pesadelo neur&amp;oacute;tico-est&amp;aacute;tico de um realizador n&amp;oacute;rdico premiado. &lt;br&gt;
Mergulham os dois as m&amp;atilde;os no balde das pipocas e recordam aquela vez em que aterraram tamb&amp;eacute;m de chofre nos del&amp;iacute;rios onanistas de um outro realizador, este franc&amp;ecirc;s (s&amp;oacute; podia!), o que lhes vale um ataque de riso, logo seguido de um&lt;i&gt; chiuuu!&lt;/i&gt; sibilado do outro canto da sala. Parecia que, a cada vez que tentavam fugir, por uma hora que fosse, da esquizofrenia do seu pr&amp;oacute;prio quotidiano, o acaso trocava-lhes as voltas e contemplava-os com a esquizofrenia dos outros, esparramada num ecr&amp;atilde; gigante! N&amp;atilde;o &amp;eacute; que achassem aquilo mau (ali&amp;aacute;s, quem eram eles para criticar o chamado cinema de autor?, eles, os soberanos incontestados das matin&amp;eacute;s &lt;i&gt;walt disney presents&lt;/i&gt;...), mas fazia-lhes esp&amp;eacute;cie, aquela aus&amp;ecirc;ncia de ru&amp;iacute;do das emo&amp;ccedil;&amp;otilde;es dos personagens, que os obrigava a deitarem-se a adivinhar. &lt;br&gt;
&amp;Agrave;s tantas, algures entre um div&amp;oacute;rcio e uma tentativa de suic&amp;iacute;dio filmados em tons s&amp;eacute;pia, ele sussurra-lhe, o que me apetecia mesmo, mesmo, era um big mac. Ela sacode uma pipoca colada no canto da boca e, sem se dar ao trabalho de fingir-se enjoada com a vulgaridade da sugest&amp;atilde;o,  atira-lhe um sonoro e sint&amp;eacute;tico &lt;i&gt;bora!&lt;/i&gt;. Enquanto, no ecr&amp;atilde;, a neve cai e os personagens dialogam sob a forma de mon&amp;oacute;logos sucessivos, eles d&amp;atilde;o-se as m&amp;atilde;os pegajosas de a&amp;ccedil;&amp;uacute;car queimado e furam sem cerim&amp;oacute;nia a circunspecta fila, deixando atr&amp;aacute;s de si um lastro de desculpas n&amp;atilde;o aceites. No corredor e a caminho da porta, por entre fiapos de escuro e luz, ela arrisca, &lt;i&gt;queres namorar comigo?&lt;/i&gt;;  ele alinha no jogo, &lt;i&gt;est&amp;aacute; bem,  mas s&amp;oacute; hoje.&lt;/i&gt;&lt;br&gt; 
Acabam empoleirados em dois bancos de f&amp;oacute;rmica, rodeados de putas e chulos, a lamber ketchup dos dedos e a recordar epis&amp;oacute;dios do Seinfeld. &lt;br&gt;
Nessa noite, n&amp;atilde;o pedem tr&amp;ecirc;s happy meal com cheese natura, dois para rapaz, um para rapariga. Mas arrecadam o brinde.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27498677-115318213793378808?l=controversamaresia-oscontos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115318213793378808'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115318213793378808'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://controversamaresia-oscontos.blogspot.com/2006/07/arte-da-fuga-conseguida-custo-entrega.html' title=''/><author><name>vieira do mar</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01863960878258913114'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27498677.post-115318187866446076</id><published>2006-07-18T01:17:00.000+01:00</published><updated>2006-07-18T02:13:28.916+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;b&gt;&lt;font size=4&gt;&lt;font color="#8080FF"&gt;os vermes dos dias iguais&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/b&gt;&lt;p&gt;&lt;p&gt;

Combinaram encontrar-se no cart&amp;oacute;rio, que ficava exactamente por cima da conservat&amp;oacute;ria onde, um m&amp;ecirc;s antes, um velho de voz enrodilhada e articula&amp;ccedil;&amp;otilde;es rangentes lhes decretara o div&amp;oacute;rcio e ela vomitara o almo&amp;ccedil;o aos p&amp;eacute;s da funcion&amp;aacute;ria que assessorava o acto. Desta vez, por&amp;eacute;m, segurara o est&amp;ocirc;mago com um jejum prolongado e apresentava-se calma, decente, v&amp;aacute;, de sapatinho de salto e saia travada, a emanar respeitabilidade suficiente para aquietar qualquer desconfian&amp;ccedil;a negocial da contraparte. Ele chegou-se-lhe de gravata &amp;agrave;s riscas, fato completo e corte de cabelo &amp;agrave; barbeiro de bairro, as patilhas demasiado compridas e acertadas &amp;agrave; navalha, reparou ela, a transpirar honestidade, confian&amp;ccedil;a e for&amp;ccedil;a de trabalho por todos os poros, na sua pose habitual de vencedor nato.&lt;br&gt;
Encontraram-se &amp;agrave; entrada do pr&amp;eacute;dio, ambos atrasados (o mesm&amp;iacute;ssimo atraso, ao minuto,  n&amp;atilde;o: ao segundo!), j&amp;aacute; os promitentes compradores fungavam e o not&amp;aacute;rio arfava de calor e impaci&amp;ecirc;ncia, &lt;i&gt;desculpem, desculpem, aqui est&amp;atilde;o os nossos b&amp;ecirc;-is (nossos, n&amp;atilde;o, o meu e o teu&lt;/i&gt;, pensou ela, num daqueles preciosismos desnecess&amp;aacute;rios de alma xupa-lim&amp;otilde;es, arrepiada e amarga que s&amp;oacute; visto), &lt;i&gt;estado civil? casada, ai desculpe, divorciada, &amp;eacute; que ainda n&amp;atilde;o me habituei&lt;/i&gt;.&lt;br&gt; 
Ele sentou-se ao lado dela, afastando-se uns precautos dez cent&amp;iacute;metros, espa&amp;ccedil;o contentor, n&amp;atilde;o era o que querias?, o squiiiiiich das pontas das pernas da cadeira, a riscarem o soalho sob o peso dele e a arrepiarem a pele dela, e o sobrolho franzido do velho, que ajustou os &amp;oacute;culos e come&amp;ccedil;ou a ler a escritura.  No entretanto, ela a reconhecer-lhe o perfume e ele a topar-lhe o tom ruivo das madeixas e a extrapolar os motivos, porque raio j&amp;aacute; n&amp;atilde;o est&amp;aacute;s loura?, ambos demasiado pr&amp;oacute;ximos, demasiado tristes, demasiado fr&amp;aacute;geis, afasta-te, v&amp;aacute;!,  n&amp;atilde;o era isso que tu querias, dist&amp;acirc;ncia? ent&amp;atilde;o chega-te para l&amp;aacute;, olha para  outro lado, n&amp;atilde;o me inspecciones como se tivesse piolhos, primeiro outorgante; e tu n&amp;atilde;o me cheires dessa maneira que mais pareces uma cadela de focinho al&amp;ccedil;ado, a farejar-me, segunda outorgante. Mantiveram o di&amp;aacute;logo telep&amp;aacute;tico durante toda a leitura, como dois mi&amp;uacute;dos de escola, colegas de carteira que passassem a aula a empurrar-se e a acotovelar-se, a ver quem cai primeiro, &lt;i&gt;n&amp;atilde;o fui eu senhora professora, foi ele, ele &amp;eacute; que come&amp;ccedil;ou tudo!&lt;/i&gt;&lt;br&gt;
&amp;Agrave;s tantas, ela comp&amp;ocirc;s um ar urgente e fingiu ler mensagens no telem&amp;oacute;vel, &lt;i&gt;v&amp;ecirc;s? estou muito ocupada desde que nos separ&amp;aacute;mos, repara bem!&lt;/i&gt;, enquanto lhe media as patilhas pelo canto do olho e lhe espreitava a nuca im&amp;oacute;vel, im&amp;oacute;vel inscrito na matriz coiso e tal, a cabe&amp;ccedil;a dele virada para a rua, sito na rua n&amp;atilde;o sei das quantas, lote xis, r&amp;eacute;s do ch&amp;atilde;o, e ele a acreditar na farsa , no ch&amp;atilde;o, sim! conseguiste, estou no ch&amp;atilde;o, arrasado, buldorizado, espalmadinho de tanta saudade e ci&amp;uacute;me. Quando chegou a altura de assinar,  passou-lhe para a m&amp;atilde;o a caneta que ela lhe oferecera tr&amp;ecirc;s natais antes e trocaram cheques, sorrisos e apertos de m&amp;atilde;o com os novos donos do apartamento que fora deles, prometendo-lhes que, at&amp;eacute;ao fim da semana, o limpariam  dos destro&amp;ccedil;os do naufr&amp;aacute;gio do seu casamento.&lt;br&gt;
Foi ele quem pagou os emolumentos devidos e requisitou duas c&amp;oacute;pias certificadas da escritura, a puta da escritura (uma para ela). Desceram juntos at&amp;eacute; &amp;agrave; rua, concentrados no tum tum tum s&amp;iacute;ncrono dos passos matraqueados nos degraus. Despediram-se de vista baixa, fingindo ignorar o pestanejo aflito do olhar do outro, SOS!, tr&amp;ecirc;s curtos, tr&amp;ecirc;s longos, tr&amp;ecirc;s curtos, SOS!, e viraram-se as costas num rompante de sevilhanas, rua acima um, rua abaixo o outro.&lt;br&gt; 
Chegado &amp;agrave; esquina, ele tirou o b&amp;ecirc;-i do bolso para o guardar na carteira, mas sa&amp;iacute;ram-lhe dois: dois documentos de identifica&amp;ccedil;&amp;atilde;o, agarradinhos ao outro, a filia&amp;ccedil;&amp;atilde;o dele colada na fotografia dela. Respirou de al&amp;iacute;vio, finalmente, tinham chegado os meios de salvamento, os mar&amp;iacute;timos, os terrestres, os a&amp;eacute;reos!, pelo que poderia dar in&amp;iacute;cio &amp;agrave; opera&amp;ccedil;&amp;atilde;o de resgate.  Virou-se num p&amp;eacute;, como um bailarino num soustenu desequilibrado e desencabrestou rua acima, a chamar por ela, exibindo o documento como se fosse um colete insufl&amp;aacute;vel e ela se estivesse a afogar, j&amp;aacute; a ouvir violinos e a ver ao longe uma luz que a chamasse.&lt;br&gt;
Quase esbarrou nela, que descia, lebre-de-corrida,  com a caneta dos tr&amp;ecirc;s natais anteriores na m&amp;atilde;o, a gritar por socorro e preparada para lhe disparar um &lt;i&gt;verilaite&lt;/i&gt; no est&amp;ocirc;mago. &lt;br&gt;
E ali, no meio da rua e a meio caminho um do outro, respirando-se boca-a-boca, pensaram poder de facto resgatar aquele amor naufragado, sem saberem que um Amor, quando se descostura e rompe, n&amp;atilde;o h&amp;aacute; desfibrilha&amp;ccedil;&amp;atilde;o nem manobra card&amp;iacute;aca que o valha, e que o deles h&amp;aacute; muito que estava morto e decomposto, a servir de alimento aos vermes dos dias iguais que, &amp;agrave; espreita nas esquinas dos pr&amp;eacute;dios que lhes lan&amp;ccedil;avam sombra por sobre as l&amp;iacute;nguas molhadas, aguardavam o momento  de se banquetearem de novo,  num festim vampiresco. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27498677-115318187866446076?l=controversamaresia-oscontos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115318187866446076'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115318187866446076'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://controversamaresia-oscontos.blogspot.com/2006/07/os-vermes-dos-dias-iguais-combinaram.html' title=''/><author><name>vieira do mar</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01863960878258913114'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27498677.post-115313865736109145</id><published>2006-04-30T22:17:00.000+01:00</published><updated>2006-07-17T14:42:12.766+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;font color="#8080FF" size="4"&gt;&lt;b&gt;da cintura para cima&lt;/b&gt;&lt;/font&gt;&lt;p&gt;&lt;p&gt;

Encontravam-se no carro que calhasse, no dele, no dela, no emprestado por um amigo condo&amp;iacute;do. Encasulados, as janelas para cima, fechados ao mundo l&amp;aacute; fora (comose assim ningu&amp;eacute;m os pudesse ver), tocavam-se pouco, as m&amp;atilde;os recatadamenteatrevidas, a consider&amp;aacute;vel  dist&amp;acirc;ncia da vontade e sempre da cinturapara cima. &lt;br&gt;
Exploravam-se perfis e frentes, ma&amp;ccedil;&amp;atilde;s do rosto, l&amp;oacute;bulos, sobrancelhas, palatos, queixos e l&amp;iacute;nguas e pouco mais. Com a parcim&amp;oacute;nia que sempre carrega o tempo fatiado em segundos, amavam-se  em tr&amp;acirc;nsito e semsofreguid&amp;atilde;o: no meio da urg&amp;ecirc;ncia roubada ao resto, precisavam dese usufruir ao mil&amp;iacute;metro, com aquela calma deliberada das noites de neveque trabalham caladas para um amanhecer branco. &lt;br&gt;
Nunca puseram a hip&amp;oacute;tese de ir mais longe, mais abaixo, de descer ao hemisf&amp;eacute;rio sul do desejo, pois o que se davam a sentir merecia-lhes outra largura, uma onde lhes coubesse a amplitude daquele absurdo insone que os invadia e onde este pudesse explodir para os todos lados, cair-lhes em cima e destruir-lhes a realidade &amp;agrave; volta, num ataque suicida.&lt;br&gt; 
Nunca as m&amp;atilde;os se lhes desceram abaixo da cintura: ela jamais comprovou a dimens&amp;atilde;o real da excita&amp;ccedil;&amp;atilde;o que, de olhos fechados,  se limitava a adivinhar no bafo que lhe ia dissolvendo a nuca, e ele nunca lhe sentiu pulsarem-lhe nas m&amp;atilde;os as mamas dela que, sob a camisola de l&amp;atilde; (cujo rebordojamais se atreveu a levantar), magn&amp;eacute;ticas e imposs&amp;iacute;veis, apontavampara o norte dele como um &amp;iacute;man. &lt;br&gt;
Enquanto lhe desenhava a curva do queixo com o polegar, ele imaginava-a mortalmente doente, contaminada com a saliva dele, atirada contra a parede, convidando-o a entrar, a cravar-lhe as unhas nas costas, a morder-se o l&amp;aacute;bio inferior, a apert&amp;aacute;-lo entre m&amp;atilde;os e pernas como um torno; enquanto isso, ela entrava-lhena cabe&amp;ccedil;a pela boca e arrebanhava-lhe bocadinhos da cena at&amp;eacute; lheroubar o sonho acordado e acabarem ambos num grito mudo que fazia ricochete nosvidros embaciados.&lt;br&gt;
Comeram-se as bocas, penetraram-se os dedos nas palmas das m&amp;atilde;os e  furaram-se asmeninas dos olhos; de repente, tinham outra vez  quinze anos e n&amp;atilde;o sabiamainda dos mist&amp;eacute;rios que se escondiam l&amp;aacute; nos confins do corpo, adivinhavam-nos, apenas; tinham outra vez quinze anos e medo de  que algu&amp;eacute;m os surpreendessee lhes assinalasse uma falta por mau comportamento na caderneta da vida. Estavamali, mas muitos anos antes,  num descampado qualquer,  com um primeiro amor de fei&amp;ccedil;&amp;otilde;es  finalmente esquecidas na tardia descoberta um do outro, a coberto do lusco-fusco,  uma mo&amp;iacute;nha de ang&amp;uacute;stia a boiar-lhes c&amp;aacute; em baixo, mas sustida pelo contraponto de uma felicidade matreira (a felicidadeque arrastam consigo as coisas novas e &amp;uacute;nicas e irrepet&amp;iacute;veis). Tinham outra vez quinze anos e nada lhes soava absurdo, enquanto se devoravam mil&amp;iacute;metros de pele a arder da cintura para cima, lenta e calculadamante, comuma delibera&amp;ccedil;&amp;atilde;o macerada, demarcada. &lt;br&gt;
Por momentosbreves, rarefeitos, suspirados, tudo lhes fez de novo sentido e retomou o seu devidolugar .- um lugar surgido algures no espa&amp;ccedil;o vazio deixado pela l&amp;iacute;ngua dele na boca dela -, enquanto a cidade l&amp;aacute; fora lhes passava por cima, indiferente, como c&amp;atilde;o por vinha vindimada,  e os cheiros putrefactos dassarjetas h&amp;uacute;midas lhes contornavam as cinturas intocadas. Foram sementespor germinar, contidas por minutos no &amp;acirc;mago da frescura de umfrut, protegidaspela polpa e casca e carnagem e vidros e polimento anti-ferrugem dos males do mundoexterior, que n&amp;atilde;o os quereria juntos, nunca!, nem por sombras, nem pelassombras das bocas encharcadas de ambos que se projectavam no p&amp;aacute;ra-brisasinquebr&amp;aacute;vel, escorregavam pelo limpa-vidros, tremeluziam no cromado do isqueiro e razavam a pele dos estofos, a pele deles. &lt;br&gt;
Foram eternidades vol&amp;aacute;teis, aqueles momentos em que se encontraram para semprepor entre o man&amp;iacute;pulo das mudan&amp;ccedil;as e o trav&amp;atilde;o de m&amp;atilde;o,  joelhos cravados no porta-luvas, costas encostadas ao volante,  a ouvirem a r&amp;aacute;dio em sil&amp;ecirc;ncio com as m&amp;atilde;os da cintura para cima, sempreda cintura para cima.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27498677-115313865736109145?l=controversamaresia-oscontos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115313865736109145'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115313865736109145'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://controversamaresia-oscontos.blogspot.com/2006/04/da-cintura-para-cima-encontravam-se-no.html' title=''/><author><name>vieira do mar</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01863960878258913114'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27498677.post-115314155277271812</id><published>2006-03-27T23:05:00.000+01:00</published><updated>2006-07-17T14:36:51.056+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;font color="#8080FF" size="4"&gt;&lt;b&gt;equa&amp;ccedil;&amp;atilde;o&lt;/b&gt;&lt;/font&gt;&lt;p&gt;&lt;p&gt;

Ao lado dela, ele dormia um sono inquieto, entrecortado por roncos, apneias e pontas soltas de pesadelos, peda&amp;ccedil;os das mem&amp;oacute;rias revisitadas dos dias anteriores. Desperta, como um animal nocturno, os olhos abertos na escurid&amp;atilde;o, ela escutava-lhe o ressonar arr&amp;iacute;tmico, consonante com o seu cora&amp;ccedil;&amp;atilde;o, que lhe batia forte &amp;agrave; entrada da glote, igualmente atormentado pelo que se haviam feito e dito, e pensava que nenhuma melodia lhe soara alguma vez t&amp;atilde;o bonita como o som que lhe vinha do fundo da garganta dele, a furar-lhes o sil&amp;ecirc;ncio, algures entre o ronronar de um felino e um motor engasgado. Olhou-o sem o conseguir ver, distinguiu-lhe os contornos vol&amp;aacute;teis e os olhos enxaguaram-se-lhe de ternura, uma ternura transbordante, daquelas que chegam de enxurrada, como h&amp;aacute; muito n&amp;atilde;o sentia, a quadrag&amp;eacute;sima onda na mudan&amp;ccedil;a da mar&amp;eacute;.&lt;br&gt;
Os minutos iam comendo a noite e ela foi-se deixando ficar por ali, ao lado dele, vestida, sentada na cama, a imaginar-lhe as olheiras fundas que a irrequietude seguramente lhe desenharia no rosto de manh&amp;atilde;, sem saber se haveria de ficar, de partir, de o deixar ir ou de o expulsar.  Foi sentindo a respira&amp;ccedil;&amp;atilde;o a ficar-lhe  mais calma, a transformar-se num suspiro regular e long&amp;iacute;nquo, como o som de um comboio que se afasta na esta&amp;ccedil;&amp;atilde;o antes de ganhar velocidade. Naquela noite, qual premoni&amp;ccedil;&amp;atilde;o de morte, passou-lhe a vida  frente aos olhos, os fantasmas dos  passados, presentes e futuros, como no conto do Dickens e,  como um matem&amp;aacute;tico aplicado, criou  equa&amp;ccedil;&amp;otilde;es elevadas &amp;agrave; d&amp;eacute;cima pot&amp;ecirc;ncia, desmembrou e separou todos os factores em jogo,  identificou  as opera&amp;ccedil;&amp;otilde;es a realizar,  estabeleceu a ordem das mesmas e convenceu-se que partia para a resolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o do problema. M&amp;aacute;goas com chaveta e sem chaveta, afectos entre parentesis e  sem parentesis, menos discuss&amp;atilde;o por menos d&amp;aacute; mais, regras de tr&amp;ecirc;s simples, multiplica por amor, divide por rancor, raiz quadrada de tanto querer,  m&amp;uacute;ltiplos de raiva, frac&amp;ccedil;&amp;otilde;es compostas por t&amp;eacute;dio, bissectrizes de paix&amp;atilde;o. Definiu prioridades, tra&amp;ccedil;ou um rumo, remeteu as miudezas para o lugar pr&amp;oacute;prio e encheu-se  de boas inten&amp;ccedil;&amp;otilde;es,  como se enche uma almofada de penas de ganso, adormecendo com a cabe&amp;ccedil;a cansada pousada nelas, enroscada  no suave conforto da sua pr&amp;oacute;pria determina&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Nessa noite, o ronco dele, que tantas vezes a exasperara, irritara, deseperara e cansara,  foi, por uma vez,  o som mais bonito que ela j&amp;aacute; ouvira, um murm&amp;uacute;rio de amor resgatado de um fundo lodoso, que a embalaria at&amp;eacute;  muito depois da madrugada chegar e de ele se levantar, fazer a barba, deixar-lhe um bilhete junto ao lavat&amp;oacute;rio (no qual lhe  assinalava os erros &amp;oacute;bvios na resolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o da equa&amp;ccedil;&amp;atilde;o que ela formulara noite adentro), pegar na mala feita de v&amp;eacute;spera e sair baixinho, rodando a chave na fechadura e sustendo-a enquanto fechava a porta com todo o cuidado, para evitar que esta batesse e ela acordasse.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27498677-115314155277271812?l=controversamaresia-oscontos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115314155277271812'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115314155277271812'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://controversamaresia-oscontos.blogspot.com/2006/03/equaspera-e-sair-baixinho-rodando.html' title=''/><author><name>vieira do mar</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01863960878258913114'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27498677.post-115314183894922522</id><published>2006-02-24T19:10:00.000Z</published><updated>2006-07-17T14:44:00.630+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;font color="#8080FF" size="4"&gt;&lt;b&gt;auxiliar de dissuas&amp;otilde;es&lt;/b&gt;&lt;/font&gt;&lt;p&gt;&lt;p&gt;


Ela achava  gra&amp;ccedil;a ao facto de ele lhe responder sempre com uma piada, um arremedo ir&amp;oacute;nico ou um contraponto jocoso, provocando deliberadamente um anti-cl&amp;iacute;max desconcertante na conversa que estavam a ter. Ao mesmo tempo, irritava-a, n&amp;atilde;o porque ela o achasse incapaz de falar &lt;i&gt;a s&amp;eacute;rio&lt;/i&gt;, mas porque a sua imensa seriedade (ele era na verdade uma das pessoas mais &lt;i&gt;s&amp;eacute;rias&lt;/i&gt; que ela alguma vez conhecera) se escudava atr&amp;aacute;s daquele palavreado ligeiro, de quem parece guardar da vida uma grande brincadeira.&lt;br&gt;
Ele usava o humor f&amp;aacute;cil,  tanto como arma de arremesso como  meio de fuga, consoante a estrat&amp;eacute;gia que melhor lhe servisse para aniquilar os prop&amp;oacute;sitos dela (que eram, invariavelmente, lev&amp;aacute;-lo a despir-se e ficar-lhe &amp;agrave; merc&amp;ecirc;, com as veias da alma salientes e sob tens&amp;atilde;o, garroteadas por confiss&amp;otilde;es &amp;iacute;ntimas). Mas o h&amp;aacute;bito de contar at&amp;eacute; tr&amp;ecirc;s e fugir, de  fingir que n&amp;atilde;o era nada com ele e jogar &amp;agrave;s escondidas consigo pr&amp;oacute;prio, era-lhe superior;  desde sempre,  aprendera a suster fraquezas e a  tapar as suas frestas com doses maci&amp;ccedil;as de  gozo-cimento-cola, que depois estucava com afagos de sarcasmo e, por fim, cobria com pinceladas de conversa a desprop&amp;oacute;sito.&lt;br&gt;
Era um mestre no desconversar, fazia-o com uma subtileza admir&amp;aacute;vel: nunca mudava de assunto (como fazem a maior parte das pessoas que pretendem desconversar) e atinha-se &amp;agrave; quest&amp;atilde;o principal, mas introduzia-lhe um desvio subtil, um atalho (ele o lobo, ela o capuchinho);  no minuto seguinte  e j&amp;aacute; o paleio aterrara na pol&amp;iacute;tica internacional ou no estado de conserva&amp;ccedil;&amp;atilde;o das auto-estradas ( numa qualquer banalidade que o valesse).&lt;br&gt; 
Ela entrava no jogo,  n&amp;atilde;o por artes de uma qualquer  ingenuidade cega (ela l&amp;ecirc;-lo-ia sempre, nem que fosse em &lt;i&gt;braille&lt;/i&gt;), mas porque n&amp;atilde;o queria perder o fio &amp;agrave; meada da presen&amp;ccedil;a dele, do seu cheiro, das ondas hertzianas daquele riso, mesmo quando a gozava e se lhe  negava, quando a ela lhe apetecia gritar e dizer-lhe que parasse de brincar e de fingir, que com ela n&amp;atilde;o era preciso. &lt;br&gt;
O que ela n&amp;atilde;o entendeu (e ele tamb&amp;eacute;m nunca se deu ao trabalho de lhe explicar) foi que,  precisamente por ela ser quem era,  mostrava-se especialmente preciso goz&amp;aacute;-la; impunha-se-lhe mandar bocas,  enfiar parvo&amp;iacute;ces no meio das tais frinchas e sujar com piadas f&amp;aacute;ceis os lavares de alma m&amp;uacute;tuos. Porque, mal davam por eles e l&amp;aacute; estavam a escarafunchar-se,  a arrancar-se aos bocadinhos, a  lapidar-se aqui e a retocar-se ali,  as palavras e os olhares como malho e cinzel um no outro.&lt;br&gt; 
A cada n&amp;atilde;o-piada, sorriso ausente, seriedade presumida, assalto de p&amp;acirc;nico cora&amp;ccedil;&amp;atilde;o ao alto, de tanto se quererem, mergulhavam-se mais e mais e, enquanto ela se deixava nadar por ali fora a bra&amp;ccedil;adas largas, como quem vai para o meio do oceano sem cuidar das reservas para o regresso &amp;agrave; praia, ele tirava os p&amp;eacute;s da rebenta&amp;ccedil;&amp;atilde;o como se esta o queimasse, corria dali para fora como  um mi&amp;uacute;do,  um medo da  mar&amp;eacute;vazia que nem espuma faze quando encontra a margem, e subia  e subia as dunas at&amp;eacute; encontrar terreno seguro e seco., onde se deixava estar. S&amp;oacute; ent&amp;atilde;o respirava fundo e descansava, enquanto encenava mais d&amp;uacute;zia e meia de respostas prontas.&lt;br&gt;
Era a hist&amp;oacute;ria da vida dele, o &lt;i&gt;deixar-se ficar em terra&lt;/i&gt;, como uma constru&amp;ccedil;&amp;atilde;o na areia, indestrut&amp;iacute;vel na sua fragilidade sazonal,  erigida a custo de muito trabalho de bra&amp;ccedil;o e baldes de &amp;aacute;gua  fria. Ningu&amp;eacute;m o levava a fazer algo que n&amp;atilde;o quisesse e, para ele, era f&amp;aacute;cil &lt;i&gt;n&amp;atilde;o o querer&lt;/i&gt;, bastava-lhe desej&amp;aacute;-lo e estalar os dedos. E era nesse &lt;i&gt;n&amp;atilde;o querer&lt;/i&gt; que entrava a  piadola,  um excelente auxiliar de dissuas&amp;otilde;es. Era isso!, aquela coisa  de cortar a solenidade com um dichote, uma laracha,  mais n&amp;atilde;o  era do que  um  excelente &lt;i&gt;auxiliar de dissuas&amp;otilde;es&lt;/i&gt;, uma esp&amp;eacute;cie de  muleta para a sua personalidade coxa. E resultava: ela sentia-se ami&amp;uacute;de como que a atirar o barro do seu cora&amp;ccedil;&amp;atilde;o &amp;agrave; parede do sarcasmo dele; uma parede de tal forma grossa que mais lhe parecia  uma muralha da china, um muro de berlim por derrubar. Por vezes, ela  n&amp;atilde;o vislumbrava quem estava por tr&amp;aacute;s dele: se era aquele que volta e meia mergulhava a alma, a lavava,  torcia, retirava o excesso e a punha a secar mesmo &amp;agrave; sua frente, ou um  desconhecido qualquer que lhe fazia malabarismos de circo &amp;agrave; flor da pele.&lt;br&gt; 
Come&amp;ccedil;ou a entrar no jogo, mas o facto de n&amp;atilde;o se encontrar &lt;i&gt;devidamente equipada&lt;/i&gt;, dado o seu pragmatismo sincero e a sua impaci&amp;ecirc;ncia nata, come&amp;ccedil;ou a incomod&amp;aacute;-la: sentia-se  pouco verdadeira e a chegar a lado nenhum. Ela, uma mulher feliz e de bem com a vida, sempre com o riso aos p&amp;eacute;s da boca,  queria ensaiar-lhe frases dram&amp;aacute;ticas ao jeito de hero&amp;iacute;na tr&amp;aacute;gica; imaginava a lan&amp;ccedil;ar-se-lhe aos p&amp;eacute;s e agarrar-se-lhe &amp;agrave;s m&amp;atilde;os, via-se a confessar-lhe um amor que nem achava que sentisse,  com laivos de folhetim &lt;i&gt;tide&lt;/i&gt; e assomos de novela mexicana.  Ela, uma mulher desmerdada e de conversa a direito, andava doida por pontinhas de desespero, por migalhas de olhares furtivos, declara&amp;ccedil;&amp;otilde;es proibidas, pontos de exclama&amp;ccedil;&amp;atilde;o e outras coisas improv&amp;aacute;veis de conseguir -  por  &lt;i&gt;fatalidades a dois&lt;/i&gt;, enfim.&lt;br&gt; 
Mas cedo percebeu que, quanto mais o demonstrasse, mais ele lhe fugiria a sete p&amp;eacute;s, obs&amp;eacute;quio desta nossa natureza humana: quando um ca&amp;ccedil;a, o outro sente-se presa e foge. Por isso ela entrou no jogo e resolveu pagar para ver, com medo que ele se enfiasse para sempre selva adentro sem sequer olhar para tr&amp;aacute;s, e s&amp;oacute; parasse a quil&amp;oacute;metros dela, consumido pela exaust&amp;atilde;o. A uma piada ela respondia com outra; se ele,  desprevenido, resvalasse para o s&amp;eacute;rio, ela atalhava com o dichote da ordem e assim por diante. &lt;br&gt;
Aconteceu que ele come&amp;ccedil;ou a n&amp;atilde;o gostar de se ver reflectido nela, afinal, cabia-lhe a ele correr em frente, esse papel pertencia-lhe; n&amp;atilde;o fazia sentido, serem duas presas que se fitavam face a face,  sem fugirem, correrem ou serem ca&amp;ccedil;adas, apenas impedindo o caminho natural das coisas,  porque atravessadas ali no meio da vida uma da outra.&lt;br&gt;
Repensou a  estrat&amp;eacute;gia, investiu contra ela como um rinoceronte enfurecido e nunca mais lhe ofereceu uma &amp;uacute;nica verdade nua em p&amp;ecirc;lo. Os sorrisos de ambos, &amp;agrave;s tantas, de tanto se entrechocarem tipo gl&amp;aacute;dios e se cravarem como espadas,  amargaram-se em  esgares;  as piadas m&amp;uacute;tuas, essas,  reduziram-se a notas de roda p&amp;eacute; em suplemento de domigo. Algures l&amp;aacute; pelo meio, perderam aquilo que poderiam ter sido e migrou-lhes, para sempre e para longe, a beleza  que  um dia lhes sobrevoara as vidas. &lt;br&gt;
Durante anos, quedaram-se quase-amigos, mas sem a franqueza dos amigos, e quase-amantes, mas sem aquele esfrangalhar de corpos e almas a que se dedicam os amantes.  Foram-se, enfim, quedando pelo pouco, &lt;i&gt;quase l&amp;aacute;&lt;/i&gt; e &lt;i&gt; quase nada&lt;/i&gt;,  &amp;agrave; beirinha de um Amor e de uma Verdade desperdi&amp;ccedil;ados, que atiraram estupidamente ao ar para quem viesse atr&amp;aacute;s e os quisesse apanhar.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27498677-115314183894922522?l=controversamaresia-oscontos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115314183894922522'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115314183894922522'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://controversamaresia-oscontos.blogspot.com/2006/02/auxiliar-de-dissuass-e-os-quisesse.html' title=''/><author><name>vieira do mar</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01863960878258913114'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27498677.post-115314208208413489</id><published>2006-01-17T21:41:00.000Z</published><updated>2006-07-17T14:35:11.463+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;font color="#8080FF" size="4"&gt;&lt;b&gt;noves fora, nada&lt;/b&gt;&lt;/font&gt;&lt;p&gt;&lt;p&gt;

Ele n&amp;atilde;o sabia  como lhe dizer  que j&amp;aacute; n&amp;atilde;o aguentava o estarem separados, o n&amp;atilde;o se tocarem e n&amp;atilde;o se verem, o comunicarem-se por interpostos e nos intervalos, atrav&amp;eacute;s de sinal&amp;eacute;tica intermitente. Tinha gasto as teclas dos tel&amp;eacute;grafos, dos telefones fixos sem mensalidade  e o saldo dos telem&amp;oacute;veis sem carregamentos obrigat&amp;oacute;rios, enviado os pombos-correio de todos os pombais &amp;agrave; face da terra e escrito  em peda&amp;ccedil;os de papel com margem e sem margem as  mensagens poss&amp;iacute;veis, as quais enrolara gargalo abaixo de  muitas garrafas que atirara  ao mar de sarga&amp;ccedil;os que os separava;  tinha esgotado os gigas que as caixas de correio electr&amp;oacute;nicas, generosas, haviam posto ao seu dispor, vogado atrav&amp;eacute;s das ondas de r&amp;aacute;dio, usado a energia esp&amp;iacute;rita e os poderes telequin&amp;eacute;ticos  que cozinhara &amp;agrave; pressa, no vapor do desejo.&lt;br&gt;
Chegara-lhe, a ela,  por murm&amp;uacute;rios, em &lt;i&gt;braille&lt;/i&gt;, escrito em mil tipos de letra, &lt;i&gt;font mistral arial garamond&lt;/i&gt;,  tinha-lhe dado m&amp;uacute;sica em emep&amp;ecirc;tr&amp;ecirc;s  escolhidos a dedo,  letras precisas de mira telesc&amp;oacute;pica, feitas para apontar e irem directasao cora&amp;ccedil;&amp;atilde;o...  e ela, longe, l&amp;aacute; longe. Tinha-se coura&amp;ccedil;ado de rodeios, meias palavras e deixado levar por entusiasmos de sintaxe, metaf&amp;oacute;ricos e hiperb&amp;oacute;licos, embora sem nunca lhe ter efectivamente chegado a dizer amo-te. Sabia quanto pareceria rid&amp;iacute;culo e lhe soaria a ela a desprop&amp;oacute;sito, a desabafo &lt;i&gt;kitsch&lt;/i&gt;, a noivos de santo ant&amp;oacute;nio, novela das sete, rodap&amp;eacute; do programa do Goucha, amo-te  S&amp;oacute;nia, &amp;eacute;s a mulher da minha vida, Marco, a correio sentimental da revista Maria, a suspiros de dom&amp;eacute;stica chorosa e de reformada nost&amp;aacute;lgica; ele, convicto,  achava que j&amp;aacute; n&amp;atilde;o tinha idade para as tremuras quentes, a inconsist&amp;ecirc;ncia e o desejo gelatinoso e  adolescente que, ultimamente, o tomava de assalto pela calada da noite, a meio de uma reuni&amp;atilde;o, quando acordava e punha os p&amp;eacute;s no ch&amp;atilde;o, enquanto lavava os dentes, assinava uma acta,  consultava o saldo no multibanco, beijava a mulher ou estacionava o carro  (ele sabia, sabia tudo isso).&lt;br&gt; 
Deixara sempre o mais importante por dizer, porque, para al&amp;eacute;m do medo de que fosse verdade,  aquela declara&amp;ccedil;&amp;atilde;o pastiche que teimava em assomar-lhe aos dedos e &amp;agrave; boca, temia a reac&amp;ccedil;&amp;atilde;o dela a essa declara&amp;ccedil;&amp;atilde;o, o retraimento e a fuga em frente; por isso acabava quase sempre  com juras de amizade eterna e desinteressada,  despojada de romantismos que obviamente soariam  bacocos a ambos,  abafando com camadas racionais o som dos violinos ao longe  e os votos de paix&amp;atilde;o que trazia &amp;agrave; superf&amp;iacute;cie da pele e  queria esfoliar  para cima dela, em apanhando-a desprevenida.&lt;br&gt;
Escrevera e dissera muito, tanta coisa!, mas, afinal, ela nunca se dispusera a  ler-lhe &lt;i&gt;o amor&lt;/i&gt; nas entrelinhas,  queria-o escarrapachado &amp;agrave; sua frente e alardeado aos sete ventos, pelo que, feitas as contas, tempos depois, foi como se tivesse ficado calado, noves fora, nada.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27498677-115314208208413489?l=controversamaresia-oscontos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115314208208413489'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115314208208413489'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://controversamaresia-oscontos.blogspot.com/2006/01/noves-fora-nada-ele-n-sua-frente-e.html' title=''/><author><name>vieira do mar</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01863960878258913114'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27498677.post-115313809923387762</id><published>2005-12-23T13:06:00.000Z</published><updated>2006-07-17T14:49:11.993+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;font color="#8080FF" size="4"&gt;&lt;b&gt;silent night&lt;/b&gt;&lt;/font&gt;&lt;p&gt;&lt;p&gt;

&lt;div align="justify"&gt;
Chegou de mansinho, em bicos de pés; espreitou para dentro e remexeu-lhe o interior, como quem procura uma meia perdida num cesto de roupa; tirou-lhe os segredos para fora e espalhou-os no chão frio da cozinha, virou tudo do avesso a ver se encontrava o que queria, que era muito, quase tudo, embora menos que nada: uma ou duas chaves, que lhe dessem entrada VIP em jardins secretos a meio da noite, palavras entretecidas nos fios de algodão de uma camisola com nódoas e meia dúzia de sentimentos fiados a roca, enrolados em camisas suadas. Encontrou um fio de conversa e guardou-o, com cuidado. Enfiou-lhe a mão nos bolsos das calças enrodilhadas e despejou-lhe, no côncavo solitário do lavatório de pedra, contas de restaurante, amores antigos, um pacote de açúcar, bilhetes de metro, frases perdidas e traumas de infância. Lá bem no fundo do forro de seda, roto e amachucado, descobriu-lhe um botão, vinte cêntimos, meio maço de tabaco e uma expressão de espanto; passou-lhe os dedos pela borda dos colarinhos, em busca de rugosidades e hesitações; pegou-lhe na roupa interior e absorveu-lhe os cheiros, sentindo a textura das fibras sintéticas e a tessitura de toques antigos. Revolveu tudo o que estava ao seu alcance, farejou, procurou, embebeu-se. Nunca se ficaria por menos, sempre assim fora: onde quer que chegasse e em quem quer que entrasse, virava caixas, invólucros e recipientes do avesso, aspirava para dentro de si todos os conteúdos, as bolas de cotão, as lágrimas e os voos de borboleta (que depois regurgitava) e só descansava quando olhava em frente e via tudo desemparelhado, baralhado e espalhado. Ao comprido.
&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27498677-115313809923387762?l=controversamaresia-oscontos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115313809923387762'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115313809923387762'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://controversamaresia-oscontos.blogspot.com/2005/12/silent-night-chegou-de-mansinho-em.html' title=''/><author><name>vieira do mar</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01863960878258913114'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27498677.post-115307647931499346</id><published>2005-12-11T19:49:00.000Z</published><updated>2006-07-17T12:57:05.573+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;font color="#8080FF" size="4"&gt;&lt;b&gt;esconjuro&lt;/b&gt;&lt;/font&gt;&lt;p&gt;
&lt;div align="justify"&gt;Tinham muitas coisas em comum: um cão, uma mangueira de jardim, um puto ranhoso, a trela do cão. Não que se entendessem por aí além, mas penhoravam-se mutuamente e juravam-se pelas alminhas, a cada muda de fralda e aparo de relva. Entretanto, o puto cresceu, passou a assoar-se e a controlar os esfíncteres e a fé diminuiu-se-lhes: deixaram-se de mãos no fogo e passaram &lt;em&gt;a talvez quem sabe, não posso garantir nada&lt;/em&gt;. Para piorar, um dia, ela perdeu a trela, o cão roeu a mangueira e a relva amarelou, à conta de uma geada que lhes caiu em cima e lhes borrou a pintura sem a devida licença (que se queria em papel timbrado de três vias.&lt;br&gt;
Pouco depois, e estavam a viver de fotografias: recordações desbotadas de baba e ranho, de aparelhos de rega e de ossos entre dentes, a um passo do descrédito.Tempos volvidos e já não se jogavam nem a feijões, não se apostavam numa rifa, sequer,entre mil, pois tinham a certeza de (se) perderem e de não terem como pagar, endividados que estavam para consigo mesmos por toda a eternidade. Para compensar, ela arranjou um gato, ele arranjou-se como pode (ou terá sido o contrário?).&lt;br&gt; 
No seguimento de uma bica escaldada (a bica, não o gato, que até gostava de água fria) morreram por fim afogados, culpa toda de um cansaço que os venceu, depois de anos em que se haviam mantido à tona de vagas gigantescas de rancores salgados, daquelas muito boas para a prática de surf a dois.&lt;br&gt;
Acabaram comidos pelos peixinhos, lamentando-se por terem perdido tanto tempo terrestre a limpar rabos, passear cães e aparar relva, e por terem fodido tão pouco. Tantas mãos no fogo um pelo outro e tão poucas mãos em fogo um no outro. Enfim, quase esqueletos no fundo do mar e ainda lhes saía o trocadilho, e dos bons! &lt;em&gt;Nem tudo é mau&lt;/em&gt;, pensou ele, enquanto um caboz lhe chupava o olho direito, que faiscava raivoso em direcção ao maxilar meio descarnado dela, por sua vez escancarado numa expressão de gozo e já meio soterrado no leito oceânico das cínicas virtudes. &lt;br&gt;
Escusado será dizer que, na senda de neptuno (mas sem a respectiva dignidade 
divina), se atiram raios e coriscos para todo o sempre a vários metros de profundidade, no esconjuro eterno da maldição conjugal.
&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27498677-115307647931499346?l=controversamaresia-oscontos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115307647931499346'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115307647931499346'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://controversamaresia-oscontos.blogspot.com/2005/12/esconjuro-tinham-muitas-coisas-em.html' title=''/><author><name>vieira do mar</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01863960878258913114'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27498677.post-115313727130520641</id><published>2005-12-08T12:39:00.000Z</published><updated>2006-07-17T14:46:29.253+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;font color="#8080FF" size="4"&gt;&lt;b&gt;conto de natal&lt;/b&gt;&lt;/font&gt;&lt;p&gt;

&lt;div align="justify"&gt;Cansada, os dedos dos pés estrangulados num antipático par de botas, rendeu-se ao cansaço e encostou-se ao balcão da loja de brinquedos, balançando o papel que tinha na mão, santo e senha para mais meia dúzia de símbolos empacotados made in spain de formas de escravidão da classe média adulta: um fogão de cozinha, um balcão de loja, uma bancada de oficina, um salão de beleza, &lt;i&gt;filho és pai serás&lt;/i&gt;. No abandono resignado do encosto, sentiu que tocava em alguém que, por sua vez, também se deixava ir na fadiga de mais uma sessão de compras e tombava o corpo para o mesmo lado da estrutura contraplacada.&lt;br&gt;
Despertando do marasmo meio dorido a que se abandonara por segundos, endireitou-se de um pulo e, enquanto cozinhava a desculpa cortês da praxe,voltou-se para ele.&lt;br&gt; Reconheceram-se, mas não logo: no primeiro milésimo de segundo nem se viram, até porque nenhum estava na verdade ali, na manhã de uma véspera de Natal cercado pela fúria consumista de uma turba sem sonhos, de mão no ar e à espera da misericórdia de um empregado que lhes traria, embalada, a alegria em diferido dos respectivos rebentos, filhos de outros amores. Aquele encontro estava, portanto, predestinado a ser pouco mais do que um anacronismo, um parágrafo que o autor da história se devia apressar a apagar. Mas não apagou e eles ali continuaram, com o pânico por momentos pespegado ns olhos do outro, na boca do outro, nas rugas sobrevindas do outro.&lt;br&gt;
Instalou-se-lhes uma dúvida mútua, &lt;i&gt;como deveriam tratar-se?&lt;/i&gt; Talvez com uma raiva polida que, de qualquer modo, seria sempre fingida. A despedida, anos antes, não fora das mais cordatas mas, na bruma dos tempos que se lhe seguiram, tanto se haviam arrojado mutuamente, arrancado cabelos e engolido sapos, agoniados com o novo silêncio e a nova vida do outro, que lhes restara pouco mais do que farrapos (embora fundos e incrustados) de memórias. A passagem balsâmica do tempo diluíra-lhes o ódio e as cores deste, outrora berrantes, havia esmaecido como as de um fresco antigo por restaurar.De algum modo, haviam conseguido enxertar este amor distante e à distância, nos outros entretanto surgidos, revivendo-o entre uma ida ao colégio ou ao dentista, uma reunião importante ou uma manhã no hipermercado, numa espécie de masturbação solitária e quase feliz, como quem se vem com os cinco sentidos presos ao holograma de um rosto antigo, &lt;i&gt;deixa-me fechar os olhos e fingir que te tenho aqui&lt;/i&gt;.&lt;br&gt;
Em assim sendo, mortos e enterrados os relambórios finais daquele amor partido em cacos e despejado no lixo a pazadas rápidas, permitiram-se um sorriso. Sincero e sentido, porque se tinham tocado e misturado calores e odores (&lt;i&gt;pronto, já cá tenho o teu cheiro&lt;/i&gt;) ao som de um &lt;i&gt;gingle&lt;/i&gt; interminável que lhes cantava como era engraçado viajar num trenó aberto de um só cavalo, alheios ao &lt;i&gt;ramerame&lt;/i&gt; dos casalinhos de fim-de-semana (muitos, seguramente, tocando-se na cama com intensidade inferior àqueles encosto de ombros e bebedeira de hálitos), ocupados em acumular dívidas e rancores para as décadas seguintes.&lt;br&gt;
Depois da exultação inicial, no entanto, instalou-se a conversa banal, &lt;i&gt;então, estás boa, nas compras?, sim, para os miúdos, quantos tens?, tenho dois, eu tenho uma, uma trabalheira, pois é, mas vale a pena, sim, é muito bom, casado?, separada?, que idades têm?, seis e oito, cinco, moras em Lisboa?, nos arredores, trabalho num banco, eu estou em casa, sabes como é, miúdos pequenos, esta loja é péssima, demoram horas a entregar as coisas, não achas? queres tomar um café, não posso, o meu marido está ali à espera, ah, claro, bom, mas se quiseres, um dia destes..., combinado&lt;/i&gt;. &lt;br&gt;
E lá foram ficando na irrelevância das palavras, dois amantes  pistoleiros numa vilória poeirenta do faroeste suburbano, num frente a frente de tudo ou nada, que se amariam sempre, por muito que amassem outros por mais tempo e ainda mais do que um ao outro. Naquele dia, por um acaso da sorte ou do azar, haviam-se exalado de novo, desprovidos de outra emoção que não a do prazer do reencontro. Quando o empregado finalmente chegou com os respectivos pacotes, despediram-se com dois beijos na cara, prolongaram o toque de pele até ao limite do socialmente correcto e separaram-se cada um para seu lado, pois tinham os carros em cantos opostos do parque de estacionamento. Atiraram os embrulhos com desnecessário descuido para o fundo da bagageira e agarraram com força a ideia que cada um fizera do seu Natal,  com outros amores nas casas novas, devidamente enfeitadas e dotadas de modernos sistemas de aquecimento central que dispensavam lareiras. Agarraram-na com força, a essa ideia confortável de &lt;i&gt;perfeição&lt;/i&gt; e guardaram-na no bolso dos respectivos casacos, como um pedaço de plasticina frio e por moldar, porque, depois daquele encontro e nos minutos (ou nas horas, talvez dias) que se lhe seguiram, haviam ficado sem saber que raio de formato haveriam de dar-lhe, ao &lt;i&gt;Natal&lt;/i&gt; que tinham pela frente.&lt;br&gt; 
Quanto a iluminação, não obstante, estavam aviados: dentro deles, havia-se acendido uma fiada de luzes de exterior inteira, daquelas com trezentas lâmpadas, mil &lt;i&gt;watts&lt;/i&gt;, várias cores em múltiplas combinações e oito melodias, embora sem transformador nem caixa de água e sujeita, por isso, a um monumental curto-circuito em caso de intempérie súbita.
&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27498677-115313727130520641?l=controversamaresia-oscontos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115313727130520641'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115313727130520641'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://controversamaresia-oscontos.blogspot.com/2005/12/conto-de-natal-cansada-os-dedos-dos-ps.html' title=''/><author><name>vieira do mar</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01863960878258913114'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27498677.post-115313780011340663</id><published>2005-12-02T12:29:00.000Z</published><updated>2006-07-17T13:03:20.116+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;font color="#8080FF" size="4"&gt;&lt;b&gt;(sei que estás aí)&lt;/b&gt;&lt;/font&gt;

&lt;div align="justify"&gt;
Estás aí, sei que estás aí: porque disfarças e desconversas e assobias marchas e hinos para o ar, como quem não quer a coisa, se eu sei que és tu, esse ser ínfimo de olhar esquivo, fato cinzento de mau corte e expressão rubicunda, que se esconde atrás das centenas de arquivos amontoados, onde guarda a informação catalogada sobre mim. Sei que vives para relativamente pouco: para me releres os pontos finais, subentenderes frases simples de direcção única e para me dissecares as palavras, as horas e a anarquia dos meus rituais, debaixo de uma luz potente de halogéneo, das que alumiam um estádio inteiro. Fica aí, fica, de nariz colado ao ecrã, feito lupa de aumentar, a rasgares os meus céus com os teus olhos de radar, em busca de um sinal da minha loucura, do meu perdão, do meu esquecimento, do meu jantar de ontem ou da copa do meu soutiã (que gostarias que fossem os teus dedos abertos).Estás à vontade: usa os teus contactos privilegiados, cobra favores, promete mundo e fundos; pespega-te ao que escrevo como um fóssil jurássico, bebe os programas que vejo, os livros que leio, as músicas de que gosto, aproxima-te mais e mais e depois afasta-te, que isto queima e eu mordo; são dois à bailarina, três à tesoura, quatro à caranguejo, quantos queres?, afinal, o rei manda e o rei és tu, não querias mais nada, rei das tatuagens laváveis, das mal-amadas que suspiram por um émulo teu, dos espiões imperfeitos, dos amanuenses, dos coleccionadores de borboletas e dos condóminos do prédio em frente, que não têm janela indiscreta. Não passas de uma máscara, com pretensões a imiscuir-se nas glândulas sebáceas alheias e eu, em querendo, basta-me esfoliar-te com energia, mas, afinal, é Natal, e a caridade também se mede por aqui, portanto, podes ficar, que eu deixo. Passeia-te, pisa-me as palavras com as tuas botas cardadas de soldado-vigia, marca-me o ritmo das frases com o passo do teu andar, enjaulado e nervoso. Fica, que eu deixo, é época de perdão, apesar dessa tua estranha mania de, com meia dúzia de palavras calculadas, encantares os incautos e construíres barreiras de estrada com que provocas desastres de automóvel no gelo. Aposto que cortas meticulosamente as unhas e sacodes com asco cada grão de pó que se te deposita no colarinho. Pois fica sabendo (nunca o escrevi aqui) que às vezes deixo crescer as minhas como garras e depois pinto-as de roxo e roo-as até ao sabugo, num ataque de fúria ou saudade; e que deixo que o pó se me cole à entrada das narinas, pois não espreito o cimo dos armários; e que acarinho os ácaros e nunca espirrei alergias mas, se um dia tal me acontecer, serás o primeiro a saber, prometo avisar-to por mail: enviar-te-ei o ranho e os perdigotos em ficheiro anexo. E digo-te mais: que me rodeio de camadas e camadas de pó, onde escrevo letras ao acaso com as pontas dos dedos, tentando em vão formar palavras com o teu nome dentro.
&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27498677-115313780011340663?l=controversamaresia-oscontos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115313780011340663'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115313780011340663'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://controversamaresia-oscontos.blogspot.com/2005/12/sei-que-ests-ests-sei-que-ests-porque.html' title=''/><author><name>vieira do mar</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01863960878258913114'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27498677.post-115314232678219383</id><published>2005-11-17T20:18:00.000Z</published><updated>2006-07-17T14:44:59.930+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;font color="#8080FF" size="4"&gt;&lt;b&gt;&lt;i&gt;doce vampiro&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;/font&gt;&lt;p&gt;&lt;p&gt;

H&amp;aacute; alturas em que devemos guardar as coisas boas que nos acontecem, mesmo as inexistentes, como as cascas de amendoins, as de lana caprina, os pap&amp;eacute;is de rebu&amp;ccedil;ado e o cot&amp;atilde;o nos cantos da sala. Podemos trope&amp;ccedil;ar  e encontr&amp;aacute;-las debaixo de pedras, como bichos escondidos, ou, ent&amp;atilde;o, elas entrarem-nos olhos dentro e escarrapacharem-se-nos no cora&amp;ccedil;&amp;atilde;o: o meio de transporte e a forma de locomo&amp;ccedil;&amp;atilde;o &amp;eacute; totalmente indiferente, chegam sempre ao destino, onde se instalam como velhas reformadas, das que vieram para ficar. Tenho tido sorte, volta e meia, v&amp;ecirc;m coisas dessas sob a forma de pessoas  por mim adentro, rebentam-me  fechaduras com bazucas ou equivalente, voam sorrateiramente pelas minhas aberturas  e instalam-se-me como vampiros queridos nas curvas do meu pesco&amp;ccedil;o, que lambem mas n&amp;atilde;o mordem, enquanto me finjo a dormir,  faz de conta que  nem dou pelo seu aninhar, &amp;eacute; da maneira que me corre um sorriso ainda maior na direc&amp;ccedil;&amp;atilde;o dos l&amp;aacute;bios. Quero l&amp;aacute; saber de n&amp;atilde;o ter fechadura e ficar encostada no trinco, a abanar pelos gonzos, afinal, fui &amp;agrave;s chaves do areeiro e daquelas j&amp;aacute; n&amp;atilde;o havia, por isso, deixo-me ficar, de janelas abertas no gozo do fresco da noite e das coisas e dos bichos e das pessoas, facilito intrus&amp;otilde;es inesperadas, pisco o olho &amp;agrave;s corujas e outros animais nocturnos que se me poisam nas pontas dos dedos dos p&amp;eacute;s por cima do len&amp;ccedil;ol e que velam por mim enquanto finjo que sonho. L&amp;aacute; est&amp;aacute;,  tenho tido sorte: ganho mesmo quando n&amp;atilde;o jogo, duplicam-se-me os feij&amp;otilde;es e as riquezas, embora n&amp;atilde;o arrisque, nunca te arrisquei. Aproveito a deixa e brinco e finjo que sou eu a fingir que n&amp;atilde;o te quero, nem reparei que estavas a&amp;iacute;, nada disto existe, nada disto &amp;eacute; fado. S&amp;oacute; tens que ter cuidado, porque quando amanhecer o sol entra-nos pela janela e enquanto a mim me acorda da ins&amp;oacute;nia, a ti,pulveriza-te em cinzas e depois sujas-me os len&amp;ccedil;&amp;oacute;is. Mas como &amp;eacute;s uma coisa boa que eu n&amp;atilde;o quero que ningu&amp;eacute;m saiba nem me apetece partilhar, mais faltava,  recolherei com carinho o que restar de ti e guard&amp;aacute;-lo-ei numa esp&amp;eacute;cie de urnadaquelas cheias de vivos, dourados e baixo-relevos, digna de uma comemora&amp;ccedil;&amp;atilde;o centen&amp;aacute;ria. Depois, compro outra fechadura, d&amp;ecirc; l&amp;aacute; por onde der, fecho a porta a fazer g&amp;eacute;nero e aguardo a surpresa seguinte, mais um golpe de sorte, coisas novas, outros mimos, de  algu&amp;eacute;m  que a rebentou de novo, desta vez &amp;agrave; machadada, &amp;agrave; paulada, com um obus, quem sabe,  e se me aninhe noutro lado qualquer e me assista durante a noite, quando finjo que durmo s&amp;oacute; para ser sonhada por um outro como tu, na calada da noite, enquanto essoutro n&amp;atilde;o se dissolver em p&amp;oacute; e eu n&amp;atilde;o fingir que acordo  e me espregui&amp;ccedil;o para lhe guardar e selar as mem&amp;oacute;rias que deixou espalhadas nos meus len&amp;ccedil;&amp;oacute;is.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27498677-115314232678219383?l=controversamaresia-oscontos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115314232678219383'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115314232678219383'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://controversamaresia-oscontos.blogspot.com/2005/11/doce-vampiro-his.html' title=''/><author><name>vieira do mar</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01863960878258913114'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27498677.post-115314275733400621</id><published>2004-12-28T14:25:00.000Z</published><updated>2006-07-17T14:34:18.113+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;font color="#8080FF" size="4"&gt;&lt;b&gt;conto de natal&lt;/b&gt;&lt;/font&gt;&lt;p&gt;&lt;p&gt;


Haviam-se empanturrado de azevias, filhozes, fatias paridas e sonhos. Ele olhava com laivos de enj&amp;ocirc;o para o esqueleto do per&amp;uacute;, ao abandono em cima da toalha adamascada, e para os copos de cristal meio vazios de tinto reserva. Reparou nas dedadas e nas marcas del&amp;aacute;bios na borda dos copos sujos e fixou-se estupidamente nelas, como se os gritos dos mi&amp;uacute;dos, as senten&amp;ccedil;as dos av&amp;oacute;s comodamente sentados nos sof&amp;aacute;s com o ch&amp;aacute; digestivo nos joelhos e os gorgolejos televisivos do Pavarotti no concerto de Natal, fossem apenas ru&amp;iacute;do de fundo ou m&amp;uacute;sica de elevador. As olheiras dela assinalavam-lhe o cansa&amp;ccedil;o como uma seta apontada aos anos que efectivamente tinha mas n&amp;atilde;o parecia. Um avental com n&amp;oacute;doas de recheio tapava-lhe o vestido de noite preto e os sapatos de salto haviam sido atirados para o ch&amp;atilde;o da cozinha a meio da confec&amp;ccedil;&amp;atilde;o do leite-creme. Ele fingia ouvir os primos distantes a descrever os invej&amp;aacute;veis progressos feitos na escalada da vida, enquanto pensava nas dedadas nos copos, nas olheiras dela e nos seus p&amp;eacute;s descal&amp;ccedil;os, que iam e vinham da cozinha em sil&amp;ecirc;ncio. De cada vez que regressava &amp;agrave; mesa, ela mergulhava o indicador no a&amp;ccedil;ucar das filhozes e levava-o &amp;agrave; boca, sem saber que ele via naquele gesto um sinal urgente, como um&lt;i&gt; verylight&lt;/i&gt; disparado numa noite escura. Sorrateiro e ansioso, esgueirou-se para a cozinha como um mi&amp;uacute;do que salta uma cerca para ir apanhar a bola e, enquanto ela punha a loi&amp;ccedil;ana m&amp;aacute;quina, ele ajoelhou-se e beijou-lhe os p&amp;eacute;s frios sob as meias de lycra. Ela fechou os olhos, apertando o esfreg&amp;atilde;o bravo entre os dedos. Quando o filho mais novo entrou a pedir &amp;aacute;gua, ele fingiu que estava &amp;agrave; procura de um garfo ca&amp;iacute;do aos p&amp;eacute;s dela e quando o filho mais velho entrou a perguntar pela m&amp;atilde;e, ele ainda n&amp;atilde;o tinha encontrado o garfo. Antes de sa&amp;iacute;rem, ele conduziu-a ao quarto com a gentileza e a firmeza de quem ajuda um cego a atravessar a rua, tirou-lhe o avental sujo, vestiu-lhe o casaco, foi buscar-lhe os sapatos atirados para o canto do fog&amp;atilde;o e cal&amp;ccedil;ou-lhos, numa intencionalidade quase insuport&amp;aacute;vel. Na missa, enquanto o padre contava a hist&amp;oacute;ria de um menino que nascera para ossalvar e todos cantavam aleluia, ele pensava nas olheiras dela, nos copos manchados, no dedo mergulhado no a&amp;ccedil;ucar e no momento em que a libertaria dos saltos altos, dos primos, do per&amp;uacute;, dos filhos, das meias de lycra, do esfreg&amp;atilde;o bravo e das av&amp;oacute;s com o ch&amp;aacute; nos joelhos. No dia seguinte, manh&amp;atilde; tardia, acordaram os dois no sof&amp;aacute; da sala, embrulhados na toalha adamascada e entrela&amp;ccedil;ados um no outro como as ra&amp;iacute;zes de duas &amp;aacute;rvores que cresceram juntas. Ao seu lado, os olhos aguados dos filhos fitavam o vazio da lareira apagada, recordando-os de que, no abandono da paix&amp;atilde;o celebrada noite adentro, o Pai Natal se esquecera de deixar as prendas no sapatinho.
&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27498677-115314275733400621?l=controversamaresia-oscontos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115314275733400621'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27498677/posts/default/115314275733400621'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://controversamaresia-oscontos.blogspot.com/2004/12/conto-de-natal-haviam-se-empanturrado.html' title=''/><author><name>vieira do mar</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01863960878258913114'/></author></entry></feed>